Entry: A Barbárie Ganhou Wednesday, October 29, 2014



Lembrem-se do que escrevi: “Entre um idiota cheio de convicções e sem escrúpulos, e um idiota sem ideologia e cheio de frescuras, costuma acontecer que o primeiro leve vantagem, pelo menos enquanto não forem óbvias as más consequências de sua idiotice”.

Bem, a quase vitória de Aécio Neves se deve a dois fatores: cada vez mais pessoas estão vendo e, principalmente, sentindo as más consequências da idiotice petralha, e a Dilma Rousseff é horrível. Como presidente e como candidata. O Lula, fazendo campanha, até que leva jeito (governando, ele é tão ruim quanto a “presidenta” Rousseff). Dilma Rousseff, não. Por esses dois fatores, Aécio Neves quase ganhou.

Claro, outros virão com outras explicações. Não li eles ainda, talvez nem venha a ler, por isso eu agora estou fazendo um teste de adivinhação. É que no Brasil há outra praga, além dos esquerdosos. São os liberais sem paixão. Que não costumam ter paixão pela verdade, como diz um amigo meu, ex-blogueiro (por isso, dispenso dizer seu nome). Esses, os liberais sem paixão, devem vir com uma conversa bem lógica e racional explicando como Aécio Neves fez uma campanha melhor que Serra ou Alckmin, e compreendeu melhor como se deve se comunicar e que propostas apresentar, e como deve falar de seus adversários e também do povo, e por isso quase ganhou.

Na verdade, em alguns aspectos, Aécio Neves, como candidato, foi pior que Serra ou Alckmin. Serra e Alckmin ganharam no estado deles, São Paulo. Aécio Neves perdeu em seu estado, Minas Gerais. Serra e Alckmin garantiram o segundo lugar com relativa facilidade. Segundo as pesquisas (1), Aécio Neves esteve atrás de Marina Silva até quase o final do primeiro turno, e isso porque Marina Silva também é horrível como candidata (não ouso dizer como ela seria como governante, já que nunca chefiou um governo, mas imagino que não seria muito melhor do que Dilma Rousseff). Se ela fosse uma candidata melhorzinha (se fosse o Cristovam Buarque, por exemplo), ela teria garantido seu lugar no segundo turno, impondo aos tucanos o vexame de ficarem de fora da decisão final.

A quase derrota de Dilma Rousseff pode ser sinal de três coisas no futuro, três coisas que os esquerdosos irão negar categoricamente e os liberais sem paixão podem até admitir, mas com certa má vontade: primeiro, que o povo está começando a perder a fé no PT, por conta das más consequências de sua idiotice – o povo finalmente está “sentindo”, mas não está “sabendo”. E segundo, que até 2018, no mínimo, o governo será cada vez mais criminoso, cada vez mais abusará da máquina pública para favorecer seus candidatos e seu partido, inclusive ilegalmente. O motivo é simples: com cada vez menos apoio popular (e essa perda de apoio não é por méritos da oposição, mas porque, para o povo, as más consequências de sua idiotice são inevitáveis), o jeito, se quiser permanecer no poder (e os petistas querem isso, e para sempre) é usar e abusar dos recursos públicos para fins políticos-eleitoreiros. E não, não é todo partido que faz isso. Os tucanos não usariam os correios para fazer campanha por um candidato, por exemplo. Mas o fato é que o uso ilegal de recursos públicos funcionou nesta eleição. Por que os petralhas deixariam de usá-lo, se funcionou, se o povo não se importa, se será a única maneira de ganhar a eleição em 2018 e se não há uma oposição que tente impedir isso? Resposta: não deixarão.

E terceiro, talvez o mais grave, é que a oposição ao petismo nas ruas tende a se radicalizar. Claro que os políticos da oposição, principalmente os tucanos, não serão os culpados. A militância truculenta do PT é que irá receber violência em troca de violência. Um debate político civilizado não é possível quando a) o governo promove a barbárie, e b) a barbárie funciona. Mas funciona para o PT porque a esquerda domina culturalmente o Brasil, o que tem, como consequência, o silêncio cúmplice da mídia e a boa vontade dos poderes públicos em relação à barbárie, quando a barbárie parte da esquerda. Será que a barbárie funcionará para os antipetistas? Não acredito. Mas pode servir para justificar perseguição de opositores, por exemplo.

Não, eu não acredito em socialização total da economia. Os liberais sem paixão se concentram muito nisso, como se esse fosse o único problema. Nem o Tovarish Stalin conseguiu a socialização total da economia, e seus herdeiros não querem mais nem ouvir falar nisso. Mas tenho como inevitável a barbarização da política brasileira, no sentido dela se tornar cada vez mais rude, cínica, sem limites nem respeito às leis, cada vez mais truculenta e desleal. Cada vez mais bárbara.

E temos outra coisa triste nos liberais sem paixão: eles acham que o capitalismo, o progresso econômico e o conforto material promovido pelo capitalismo, isso torna a política menos bárbara. Sim, de acordo com a lógica fria e desapaixonada deles, não, de acordo com a história, que não tem lógica nenhuma. Os Estados Unidos, em 1776, eram um país muito mais pobre do que o de hoje, em termos de conforto material, e eram também um país muito mais civilizado, gente como Obama ou Clinton não teriam nenhuma chance de chegarem a presidentes. A Argentina era um país muito mais rico que todos os países da Europa em 1946, e enquanto a empobrecida Europa Ocidental renunciava à barbárie na política, repudiando tanto fascismo quanto comunismo, a enriquecida Argentina se lançou na barbárie peronista (depois que virou, graças ao peronismo, mais um país pobre da America Latina, depois disso é que a política Argentina começou a se civilizar de novo...). Cuba estava com um pé no primeiro mundo nos anos 1950, mas a política vivia em convulsão, desconectada com a prosperidade econômica, e acabou que a barbárie de Fulgêncio Baptista foi substituída pela barbárie comunista dos irmãos Castro, apesar da prosperidade dos cubanos. A Alemanha não apenas era um país rico em 1928, eram também o país mais culto da Europa, e poucos anos depois foi tomado pela barbárie nazista. A Rússia Czarista se tornava cada vez mais prospera no começo do século XX, a economia funcionava cada vez melhor, e quanto mais prosperava mais a política se barbarizava. O Japão, antes da segunda grande guerra, era um país próspero, com uma indústria poderosa e um povo muito criativo. Isso não impediu que a política japonesa fosse totalmente dominada por facções que resolviam as questões políticas com atentados e se baseavam numa ideologia bárbara, uma espécie de feudalismo misturado com fascismo. Está provado: o progresso econômico e o conforto material não eliminam a barbárie na política.

O que elimina a barbárie na política é a derrota da barbárie, e sua consequente desmoralização. A derrota categórica de Hitler e seus aliados fascistas eliminou a barbárie política na Europa Ocidental e no Japão. As pessoas têm que acreditar que a barbárie na política não funciona, é isso que civiliza a política. No Brasil, a lição foi ao contrário: a vitória apertada de Dilma Rousseff prova que, no Brasil, a barbárie, na política, funciona. Eu não vejo razão para os petralhas renunciarem à barbárie. Se funciona, por que parar? Com certeza não será porque a economia estará se portando bem daqui a alguns anos (não estará, claro, mas mesmo se estiver isso não deterá a barbárie. Não enquanto a barbárie funcionar).

 

(1) E nesse caso é crível acreditar nas pesquisas, já que a perspectiva de enfrentar Marina Silva em lugar de Aécio Neves era o pior resultado possível para o governo.

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