Entry: Qual o valor de uma raça sensível demais? Monday, September 22, 2014



Há mais ou menos vinte anos atrás houve um grande escândalo nas forças armadas americanas. Parece que alguns militares homens estupraram (ou teriam estuprado) militares mulheres. O escândalo, como costuma acontecer nesses tempos tristes em que a verdade foi partidarizada, dividiu os comentaristas do caso entre aqueles que achavam o exercito americano uma instituição machista acobertadora de estupradores e outros que achavam tudo invenções de mulheres cínicas, ou um exagero, para ganharem algum tipo de compensação (indenizações ou algo assim). Cito de memória. Acompanhei o caso pelo Paulo Francis, que também não se aprofundou muito. Mas o Paulo Francis fez a única pergunta realmente importante nesse caso: "qual é o valor de um soldado que se deixa estuprar?" E realmente, se um soldado é tão fácil de ser estuprado, então ele não deve ser muito temível quando em combate...

Bem, eu me lembrei do Paulo Francis durante o triste caso da torcedora do Grêmio que perdeu o emprego, está sendo processada e ainda teve a casa incendiada porque chamou um goleiro negro de macaco durante um jogo de futebol. Eu vejo duas posições: uma que condena a torcedora antes de qualquer julgamento e outra que exige que ela seja julgada e punida dentro da lei, segundo o rito judicial. Alguns poucos reclamam do absurdo do Estado proteger os negros e não proteger os brancos ��" porque é claro que se alguém xingasse o ex goleiro Taffarel de "loiro nojento" ou algo assim esse alguém não seria punido (mas essa também seria uma punição dentro da lei, se fosse o caso). E menos gente ainda reclama do absurdo do Estado se meter quando alguém xinga a raça de outro alguém.

A pergunta realmente importante, e que ninguém faz, é: "qual é o valor de uma pessoa que se abala quando sua raça é xingada?" Se os brancos não se abalam quando a raça branca é xingada enquanto os negros se abalam quando a raça negra é xingada, então isso é uma prova da inferioridade dos negros. Se os heterossexuais não se abalam quando o heterossexualismo é xingado enquanto os homossexuais se abalam quando o homossexualismo é xingado, então isso é prova que os homossexuais são mesmo inferiores. Se as mulheres se abalam quando ouvem uma piada contra as mulheres e os homens não se abalam quando ouvem uma piada contra os homens, então isso é prova que as mulheres são mesmo inferiores. Imaginem os negros politicamente corretos numa guerra! Não haveria batalha. Algum branco do exercito inimigo contaria uma piada de negro e o exercito de negros politicamente corretos deixaria as armas caírem no chão e começaria a protestar contra o racismo, ao invés de lutar. Se para um negro a expressão "crioulo nojento" for tão pouco ofensiva quanto a expressão "desbotado nojento" para um branco, então sim, as raças são iguais, pelo menos ao não se abalar diante de um insulto racial.  Enquanto a expressão "crioulo nojento"  for capaz de abalar um negro mais do que a expressão "desbotado nojento" é capaz de abalar um branco, os negros serão inferiores aos brancos. Eu pelo menos não contrato um negro como policial ou como soldado se sei que se ele for xingado de "crioulo nojento" ele vai desabar e chorar, o que não acontece com um branco, se ele for xingado de "desbotado nojento".

Um argumento de quem defende o politicamente correto e a transformação de insultos raciais em crimes: "Os brancos não se abalam com ofensas à raça branca porque não vivem numa cultura que despreza os brancos. Os negros se abalam com ofensas à raça negra porque vivem numa cultura que despreza os negros."
Bem, nos 30, 40, 50, 60 e 70 do século passado, todos admitem, o racismo era maior do que hoje, e mais escancarado também. Leônidas, Zizinho, Didi, Garrincha e Pelé viviam sendo xingados de "crioulo sujo" para baixo pelos torcedores adversários (e, quando jogavam mal, pelos torcedores dos próprios times). Eles não se abalavam, não mais do que um branco se abalaria se fosse xingado de "desbotado nojento". Respondiam às ofensas com dribles e com gols e saiam rindo do estádio. Xingamentos raciais nunca os incomodaram. Eles viviam numa cultura que desprezavam menos os negros que o goleiro Aranha?

Outro argumento de quem defende o politicamente correto e a transformação de insultos raciais em crimes: "medidas legais contra quem ofende uma raça tem uma função educacional: elas ensinam às pessoas que o preconceito é errado". O problema é que, se na prática há medidas legais contra quem ofende uma raça e não há medidas legais contra quem ofende as outras, o que isso ensina é que os negros são mais protegidos pelo Estado do que os brancos, os índios e os mestiços. Ou seja, é uma questão de ter um lobby forte, não uma questão de ter ou não razão.

Além do mais, nem sempre o preconceito está errado. Se eu achar que um exercito só de homens tem mais chances de ganhar uma guerra que um exercito só de mulheres, isso é preconceito, é claro. Mas nesse caso o preconceito está certo. Mesmo assim eu corro o risco de ir para cadeia por achar isso e escrever isso. Exagero meu? Olha que se alguém dissesse, há 20 anos atrás, que ainda veríamos pessoas sendo presas por chamar um negro de macaco durante uma partida de futebol, todos diriam que é um exagero.

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O Percival Puggina, ao condenar a pressa da mídia em condenar a torcedora antes do judiciário, está implicitamente reconhecendo que sim, tem cabimento o judiciário perder tempo com insultos raciais. Num país onde falta tempo (e vários outros recursos) para prender ladrões, estupradores e assassinos, fazer a justiça e a polícia perder tempo com insultos raciais é na melhor das hipóteses uma piada de péssimo gosto.

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Não são só os negros que estão se tornando uns bobalhões supersensíveis. O mesmo está acontecendo com as crianças. Antigamente, um garoto fazia uma travessura e levava uma bruta surra de cinto. No dia seguinte estava mostrando as marcas das cintadas para os amiguinhos e achando graça. Hoje, qualquer palmadinha é caso de polícia.

E também tem o tal preconceito linguístico. Um menino antigamente aparecia na escolinha falando como caipira e ganha o apelido de baiano, ou mineiro, ou matuto, ou bugre, ou caipira, dependendo da região de onde ele vinha ou para onde ele ia, e logo ficava amigo dos outros garotos que gozavam o jeito dele falar, até muitos anos depois, já formado e sendo um profissional bem sucedido no mercado de trabalho, seus amigos do tempo de escola chamavam ele de "Zé da Roça" ou algo assim por causa do sotaque dos tempos de colégios, e o Zé da Roça só se divertindo com seus amigos, sem nem pensar em se indignar por isso. Isso era antigamente. Agora, vieram com um tal de preconceito linguístico, que por algum motivo deve ser combatido nas escolas. O melhor que se pode esperar desse combate ao preconceito linguístico nas escolas é que as escolas ficarão ainda mais chatas do que já são, para todos. Para os amiguinhos do Zé da Roça e para o Zé da Roça também. Podem ter certeza: os amiguinhos do Zé da Roça e o próprio Zé da Roça preferem uma escola onde podem fazer piadas com o sotaque dos outros.

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