Entry: Georges Seurat, e o neo-impressionismo Sunday, November 01, 2009



Muito atento ao cientifismo ótico de seu instante, Georges Seurat (1859-1891), o mais representativo dos neo-impressionistas, ensaiava já por 1882 uma pintura de toques decididamente fragmentados, intensos de cor e luminosos. Uma fragmentação da que mais tarde procederiam os nomes de divisionismo e pontilhado. O mesmo Seurat funda, em 1884, juntamente com os artistas rejeitados pelo salão oficial, a Sociedade de Artistas Independentes, presidida por Odilon Redon e em cujas exposições o Neo-Impressionismo poderia dar-se a conhecer e contrastar. Pode-se dizer que em 1888 conseguiram já os propósitos da nova empresa neo-impressionista, cujos outros militantes da primeira jornada seriam o também muito importante Paul Signac (1863-1935), Albert Dubois-Pillet (1845-1926), Henri-Edmond Cross (1856-1916), Charles Angrand (1854-1926) e, só temporáriamente, como mais atrás foi dito, o grande impressionista Camille Pisarro. Além das possibilidades brindadas pelo Salão dos Independentes, efetivo aglutinante intelectual seriam para eles as reuniões do Café Marengo e do Café de Orient. Levando muito a sério a conjunção ciência-arte. Até tal ponto que Signac fez tudo quanto pôde para que na primeira, na ciência ótico-cromática, lhe ensinasse o longevíssimo e venerável Chevreul. Como anos mais tarde, em 1899, Signac publicaria uma obra teórica tão básica quanto De Eugéne Delacroix ao Neo-Impressionismo. Obra própria de um novo tempo do artista "contemporâneo", não só incitado a explicar sua arte; obrigado também a dar a explicação da tendência em que milita, sentida como "crença", sistema, dogma... a desejar ver imposta nos outros, excludente de outros modos de conceber e fazer. Signac deixou clara a metodologia seguida pelo Neo-Impressionismo: potenciar ao máximo a luz, a cor e a harmonia; mediante a fusão ótica cromática – na retina do espectador, não com tintas misturadas sobre a paleta ou sobre a tela –, dois pigmentos "puros" equivalentes aos dos prismas; com a separação da cor local, cor luminosa e suas reações; mercê do equilíbrio desses fatores e das correspondentes proporções, de acordo com as leis do contraste, da degradação e da irradiação; obrigando-se a escolher o toque proporcionado às dimensões do quadro e, assim – postos à distância adequada para sua contemplação –, obter a mistura ótica das tintas divididamente dispostas em casa toque ou "ponto".

Porque até termo preocupava a pureza da cor, os neo-impressionistas se propuseram uma maior limpidez misturando-o na visão do espectador, em vez de manipulá-lo sobre a paleta. Feito que era tão certo como possível, mas que ao mesmo tempo supôs a renúncia a incontáveis recursos, realizações e efeitos coloridos. Como a mais metódica execução mediante pontos, – o pontilhado sistemático –, descartava os infinitos jogos possíveis da pincelada, as decisivas riquezas da fatura. Enquanto, sem dúvida inesperadamente, se recupera a concretização da forma, o desenho que o Impressionismo tinha desvanecido por inteiro em sua esfumante percepção atmosférica. Intelectualizava-se a composição potenciando-se os foros da geometria. Se não completamente, é em grande medida abandonada a pintura ao ar livre. O ateliê do artista se transforma em laboratório da cor. O sensorialismo, a visão "natural" recebe um forte golpe; por causa da ótica cientifica. Domina a investigação a percepção; o cálculo e a formula sobre a espontaneidade converte-se em todo um risco a tentação do formulismo. Não faltam a frieza e a insipidez nos menos sensíveis, embora bem dotados para apropriar-se do sistema. Ainda um tanto decaído o exercício da intuição. Da lucidez improvisadora. A arte como lucubradora ocupação intelectual impõe a sua vontade. Encontra, talvez, demasiado rápido suas normas e, imediatamente, tudo que se está fazendo fica rapidamente previsto. E que conste que tudo quanto até aqui se diz não foi negativo. Mas simplesmente aconteceu assim. E com efetivo talento inovador. (História Geral da Arte, Ediciones Del Prado, Outubro de 1996)


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O Sena em Courbevoie, de Georges Seurat.



Mais quadros de Georges Seurat aqui.

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