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Sunday, August 16, 2009
O olhar assustador de Fernando Collor de Melo sobre aliados e adversários
Primeiro, uma notícia d'O Globo do dia 04 de agosto de 2009 ( http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/08/04/simon-diz-que-teve-medo-do-olhar-de-collor-757100494.asp ): Simon diz que teve medo do olhar de Collor
BRASÍLIA - Um dia depois de enfrentar a ira da dupla Renan Calheiros (PMDB-AL) e Fernando Collor (PTB-AL) no plenário, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) confessou nesta terça-feira que teve medo do olhar transtornado do ex-presidente da República, que durante as quase duas horas de embate, ficou logo abaixo da tribuna olhando diretamente em sua direção, com o semblante muito crispado. Ele disse que em vários momentos lhe passou na memória a cena da tragédia que abalou Brasília na década de 60, quando o pai de Collor, o então senador Arnon de Mello, assassinou, com um tiro no peito, o senador acreano José Kairala, em plena tribuna.Segundo os registros da época, o senador alagoano disparou três tiros contra seu inimigo político, o senador Silvestre Péricles, a 5 metros de distância. Errou todos, mas atingiu sem querer Kairala, suplente que estava em seu último dia de mandato. Apesar do flagrante, a imunidade de Arnon de Mello o livrou de qualquer punição.- É incrível! Me veio a imagem do pai dele, que atirou e matou o senador Kairala. Foi assustador, saia fogo dos olhos do senador Fernando Collor ali logo embaixo de mim. E eu não falei nada de mais dele, quando vi ele entrou correndo, completamente transtornado ! - lembrou Simon.Daqui a pouco o senador gaúcho vai á tribuna explicar que não tem nada com a empresa de microcrédito Pôr do Sol, que Renan Calheiros insinuou que ele teria algum negócio escuso.- É uma empresa muito bacana de microcrédito. Vou mostrar que não tem nada a ver comigo - disse Simon.Ele adiantou também que não adianta a cúpula do PMDB pressionar para ele deixar o partido.- Eu sou o verdadeiro PMDB! Eu não vou renunciar. Eles que peçam minha cassação e assumam isso publicamente - disse.* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Fernando Collor de Melo assustou realmente Pedro Simon, no senado. De fato, Simon viu o que, felizmente, não se vê muito na política hoje em dia, exceto (infelizmente) entre esquerdistas: paixão. Há vários tipos de paixões. A paixão política (e paixão política não é a mesma coisa que a paixão ideológica) é uma das mais perigosas. Mas talvez seja o caso de alguém perguntar: de onde vem a paixão política de Collor, ex-presidente da república, atualmente senador a serviço de dois de seus antigos inimigos, José Sarney e Luis Inácio Lula da Silva? Certamente, quando políticos fazem acordos, eles pensam antes de tudo em seu próprio benefício e, se concluem que tal postura ou posição é boa para eles mesmos, tendem a lutar muito para fazer sua parte nesses acordos, quando imaginam serem bons para eles mesmos e presumem que os demais participantes irão honrá-los. Fernando Collor não tem muita paixão ideológica, mas tem paixão política por ele mesmo, por seus objetivos. Ele concluiu que para seus objetivos é bom que Lula da Silva seja presidente (talvez também tenha concluído ser bom para ele, Collor, que Lula da Silva também faça seu sucessor) e que José Sarney seja presidente do senado. Assim como José Sarney concluiu que para ser presidente do senado é bom ser aliado de Collor e de Lula da Silva, e Lula da Silva concluiu ser bom para ele se aliar a Collor e a Sarney. Acordos entre políticos, bons para todos, exceto (quase sempre) o povo. São acordos entre pessoas civilizadas, feitos com frieza e que excluem a paixão. No entanto, Fernando Collor tem paixão, mostrou paixão. Ele assustou Pedro Simon com sua paixão. Podemos tentar duas explicações, que não se contradizem, na verdade são complementares, e que carecem de provas, pelo menos por enquanto. Uma, é que Fernando Collor é um ególatra, talvez um psicopata, obcecado por seus projetos políticos, em grau muito maior que seus adversários, e disposto a tudo, inclusive a se aliar a seus antigos inimigos ferozes, José Sarney e Lula da Silva, contra o estado de direito (porque quem perde na atual crise do senado e com a permanência de José Sarney em seu cargo, o objetivo de Fernando Collor e Lula da Silva, é o estado de direito), para alcançar seus objetivos, quaisquer que sejam eles. Certamente, para esses objetivos a manutenção do Estado de direito não é essencial. Há uma segunda explicação, mais psicológica: Fernando Collor tem um prazer sado-masoquista. Engana-se quem acha o sado-masoquista apenas um dominador ou um dominado. Geralmente, o dominador pode trocar de papel com o dominado. Às vezes, um sado-masoquista pode querer as duas coisas ao mesmo tempo. Fernando Collor tem prazer masoquista no sofrimento, servindo a quem odeia. Mas tem um prazer sádico, constrangendo a quem odeia, Lula da Silva e José Sarney. De fato, ao servir (e se beneficiar com isso) José Sarney e Lula da Silva, Fernando Collor os rebaixa e eles têm que admitir que, no fundo, não são melhores que Fernando Collor. Esse "sado-masoquismo político" de Fernando Collor explica a paixão com que ele vem se dedicando a sua tarefa? Talvez não todo, mas uma parte, sim. As neuroses de natureza sexual não excluem a paixão. A própria paixão, em si, é uma neurose de origem sexual. A paixão política, como a paixão ideológica ou a paixão religiosa, é, provavelmente, uma sublimação da paixão sexual. A frieza dos acordos políticos pode explicar a atual posição de Fernando Collor no congresso, a paixão política baseada numa neurose ou numa psicose, se for o caso, explica porque ele se dedica a ela com tanto gosto. De resto, qualquer que seja o projeto pessoal de Fernando Collor a longo prazo, uma vingança ele já conseguiu contra muitos de seus inimigos, os militantes petistas: com sua atual postura, Fernando Collor de Melo mostrou aos militantes que a liderança petista não levava a sério o que mandava seus paus mandados fazerem contra Collor. Ou seja, a liderança petista não leva a sério sua militância, a ponto de não se importar com o constrangimento pelo qual ela passa, mudando assim de posição em relação a Collor. Para um arrogante meio paranóico, como é o caso de todo militante ideológico, de todos que têm paixão ideológica, a maior humilhação é não ser levado a sério. E assim, a militância de esquerda vem sendo humilhada por três políticos que só respeitam suas ambições. Luis Inácio Lula da Silva, com indiferença, José Sarney, desesperado para salvar seu posto no senado, e Fernando Collor de Mello, com um prazer demoníaco, estão humilhando dezenas de milhares de militantes de esquerda – que, provavelmente, não desejarão comentar esse assunto tão cedo. Podemos comentar, todavia, nós que não somos militantes de esquerda, que se a militância esquerdista tivesse temperamento e ideologia democráticas, incluindo algumas qualidades próprias do liberalismo político, como o respeito às pessoas e aos direitos dos adversários, elas hoje seriam poupadas dessa humilhação. Os militantes de esquerda teriam um líder que respeitaria o direito e a vontade de seus seguidores, teriam adversários com os quais não seria tão constrangedor assim se aliar, em determinado momento. E o Brasil, através de todo espectro ideológico, teria políticos melhores que os atuais.
Posted at 09:56 am by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, August 09, 2009
Ao Piano, de Louise Abbema
 Mais quadros de Louise Abbema aqui.
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Sunday, July 26, 2009
Freud Explica, de Paulo Francis (artigo seguido por uma carta de Alceu Amoroso Lima a Paulo Francis)
Alceu Amoroso Lima disse ao Pasquim: “O Marcuse é justamente um filosofo que erigiu o erotismo como a filosofia da vida”. Admiro Alceu Amoroso Lima por vários motivos e principalmente pela sua capacidade de mudar de opinião de maneira sincera e inteligente – a coerência perfeita quase sempre se ancora na mediocridade intelectual – mas Marcuse nunca fez essa “ereção”. O pós-marcusiano, Norman O. Brown, sim, mas ainda nele o termo erotismo tem um sentido amplo e abrangente de toda a energia humana, expressando um extremo materialismo, enquanto o erotismo condenado por Alceu – e, depois da entrevista, pelo Papa – é o do Playboy, subúrbios e adjacências.
As coisas que Marcuse não disse e que dizem que ele disse, já dariam para preencher uma obra apócrifa de razoáveis dimensões. É impossível entendê-lo sem um conhecimento básico das formulações culturais de Freud, as quais Marcuse submete à sociologia moderna. Revistas populares do tipo Time afirmam a decadência freudiana no mundo inteiro, baseando-se nas legiões de revisionistas da psicanálise, que puseram antolhos na visão serena e trágica de Freud da existência, convertendo a terapêutica psíquica numa espécie de “aquele abraço” para todas as dificuldades, excetuando-se, naturalmente, aquelas que provoquem o não pagamento das consultas. Marcuse desanca essa gente de forma definitiva no epílogo de Eros e Civilização (Zahar Editores, Rio). Perde tempo, a meu ver. Como o álcool, drogas e mulher do próximo, a micro-psicanalise tem os seus usos. Sem resolver nada, consola. Não é essa uma boa metáfora dos prazeres de nossa civilização?
Se Freud parece severo e antiquado aos ideólogos da sociedade de consumo, sua “reabilitação” junto aos pensadores modernos ganhou força meteórica. Era anátema para marxistas-stalinistas. Hoje, Lacan e Althusser o colocam entre os raros cérebros revolucionários de nossa era. Marcuse, sem inibições comunistas, foi quem desbravou essa interpretação de Freud às últimas conseqüências culturais em Eros e Civilização. O que fascina a todos é a dialética de instinto e cultura – esse, por falar nisso, o tema de Eros e Civilização e de Life Against Death, de Norman O. Brown, e não o erotismo, no sentido usual. Segundo Freud, o homem tem um cerne biológico, “animal”, se preferirem, irremovível pelas influencias externas, pelo desenvolvimento social e cultural. Ele aí entra na análise do famoso Complexo de Édipo, como ponto de partida da História humana. Deixemo-lo de lado, entretanto, para horror certo de freudianos ortodoxos. Não porque seja inverdadeiro, mas, sim porque desnecessário à aceitação universal da hipótese freudiana. O homem, continua Freud, vem entretanto, evoluindo culturalmente, sem parar. Mais e mais domina a natureza e a põe a seu serviço, etc. Esse processo só se concretiza, porém, a custa da repressão cada vez maior do já referido cerne biológico. De Platão a nossas dias, poderíamos dizer que nos espiritualizamos na medida que nos desanimalizamos. A fera aspira à condição de anjo.
Mas a fera sobrevive e reage, e daí o nosso sofrimento, culminando na consciência onipresente da morte. Apesar disso, Freud via na repressão das exigências instintivas do Complexo de Édipo o primeiro e decisivo ato de autocontrole do homem, da espécie. Mas, repito, ninguém precisa acompanhá-lo nessa conclusão para depreender a relevância de sua tese.
Os marxistas da escola Althusser não tiveram dificuldades de substituir “instinto” por “proletário alienado”, e “cultura” pelo “sistema capitalista”. Transferiram o conceito freudiano de pressão do indivíduo para a classe operária. Também, o que jamais confessam, sentem-se estimulados a imitar o “psicologismo” de Freud, ao analisarem fenômenos como o nazismo.
A origem de classe do nazismo engasgou diversos marxistas geralmente loquazes. Até Brecht teve a audácia de dizer que a perseguição aos judeus era um “disfarce” dos objetivos anticomunistas de Hitler. Trotsky, ao menos, chegou perto da verdade, ao definir o nazismo como “a pequena burguesia ensandecida”. O fanatismo idólatra dos trabalhadores alemães pelo führer pedia um Freud, pois se os operários do III Reich agiram contrariando seus interesses sociais, segundo a fórmula marxista, imaginem o que teriam feito ao mundo se fossem amigos de Hitler. Freud, de saída, definiu os eventos na Alemanha, a partir de 1933, como a eclosão homicida de profundas frustrações. Sartre também tem algumas coisas interessantes a dizer sobre o assunto, em “A Crítica da Razão Dialética”, mas Freud o precedeu de muitos anos.
Marcuse vai muito além de Althusser ou de Lacan. É mais fiel Freud, mantendo o papel de destaque do sexo descoberto pelo último. Com uma diferença fundamental: Freud achava indispensável a submissão dos instintos à criatividade cultural do homem. Marcuse acredita que o sexo – a energia instintiva em todos nós – pode ser uma força libertadora da repressão cultural. Virou Freud de cabeça para baixo.
Marcuse não foi tão longe como Norman O. Brown, que dá uma cambalhota tripla em Freud. Para Brown, à maneira do Juquinha, tudo é sexo. Ele é mais extremado do que outro discípulo dissidente de Freud, Wilhelm Reich (A Revolução Sexual já existe em português, Zahar Editores, Rio). Reich estendeu-se sobre as repercussões e possibilidades do ato sexual, em si, o que para Brown consiste numa limitação inaceitável. Brown pretende um corpo pleno e absoluto. Uma totalidade sensual permanente. Alega que o homem é o único animal a morrer a contragosto em virtude de não ter essa consciência corpórea. Na literatura, encontramos alguns ecos de Brown em D.H. Lawrence (mais de Reich do que de Brown) e, principalmente, no Norman Mailer de “The White Negro”, assim como em aspectos da subcultura hippie.
Marcuse e Brown, amigos, brigaram por causa disso. A polêmica está no livro do primeiro, Negations.
O objetivo deste artigo é chamar o leitor para o interesse e a importância de Freud, fora dos esquemas popularizados pelo Reader’s Digest e nossas amigas neuróticas. Freud tem outra vantagem: escreve com admirável clareza e simplicidade (formal), ao contrario de Marcuse ou Brown, sujeitos a buracos e pedregulhos estilísticos.
O problema de repressão e sublimação (a saída para as realizações culturais) está sempre conosco, desde que nascemos, quando mamães e babás nos impedem de fazer as coisas quando e onde queremos. Quem brinca, não trabalha, etc. É de uma simplicidade tão grande que só um gênio seria capaz de descobri-la. Particularmente, prefiro a versão de Marcuse à do próprio Freud e a de Brown. Sexo, neste sentido, do uso pleno da nossa vitalidade física em busca do autoconhecimento, da formação de comunidades de seres humanos afins, parece um antídoto ao totalitarismo cultural da época. O excesso de Brown me parece inviável nessa fase da civilização. Talvez as gerações futuras o confirmem.
Vivemos ainda, porém, no mundo descrito por Freud. A repressão a que ele refere está longe de ser apenas autoinfligida ou de qualquer resultados sempre benéficos. Há de tudo.
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Sobre esta nota introdutória a Freud recebi de Alceu Amoroso Lima uma carta que público, por permissão do autor, como um adendo valioso ao tema:
Rio, outubro de 1969
Meu caro Paulo Francis,
Não costumo explicar o que escrevo. Mas admiro tanto o que você escreve, mesmo sem partilhar de suas convicções profundas, que me deu vontade de dizer duas palavras sobre seu comentário, tão simpático, no último número do Pasquim, à minha entrevista.
A palavra Erotismo é ambígua por natureza. Qual a que não é? Quando a empreguei, em relação a Macurse, foi exatamente no sentido mais amplo, admitindo inúmeros entretons. Mas como um ponto extremo e antitético à concepção cristã do Amor. Tanto a filosofia cristã da vida, substancialmente antimaterialista, mas incluindo de tal modo a matéria em suas linhas mestras, que Teilhard de Chardin pôde escrever em seu admirável “Hino à Matéria” – como o materialismo integral, no sentido “browniano” (tão diverso do materialismo vulgar) – fazem do Amor o eixo da vida da verdade. Há pois entre essa dupla integralização – a Espiritualista e a Materialista – digamos assim um eixo comum. Apenas se colocam na ponta extrema, oposta desse eixo. E por isso podemos falar de Eros, o ponto extremo do eixo, segundo, os materialistas, tipo Freud, Marcuse ou Brown, e de Agape, o extremo oposto, em que o amor assume a sua translucidez absoluta em Deus, que “é Amor”. “Deus charitas est”, segundo a definição joanina. Foi o que tentei fazer num artigo “Eros e Agape” (Jornal do Brasil, 19 setº 69).
Ora, quando disse, de passagem na minha entrevista, que o erotismo era para Marcuse uma filosofia de vida, entendia genitalismo para distinguir de sexualismo, mas no sentido filosófico. É provável que Marcuse, como você tão bem o desenvolveu, não tenha chegado a uma concepção total do erotismo, como Freud ou Brown ou Reich, mas tampouco o entendeu no sentido vulgar da expressão, tipo Playboy. Eleva-o a uma concepção filosófica da vida, de tipo muito mais profundo que o simples erotismo burguês que assola o mundo moderno e é sinal patente, como o nudismo, de uma civilização decadente e que se despe para morrer. Marcuse não é um Ovídio do século XX.
Se não aceito a filosofia erótica da vida, tanto no sentido ovidiano como no sentido marcusiano, na a confundo como o erotismo do Reader’s Digest ou do Time, muito menos do Playboy. É que aceito o agapismo (se assim posso dizer) que se coloca no extremo oposto, embora situado no mesmo eixo da verdade, em que o Amor é supremo. Agape não é uma negação de Eros. É a sua espiritualização, imamente e mesmo transcedente, na mesma linha em que gênios poéticos opostos se encontram: Baudelaire (voltado para Eros) e Claudel (voltado para Agape).
São esses, em resumo, os comentários que seu excelente artigo me despertou e que me valem a oportunidade de dizer-lhe o prazer que tenho de o ler, mesmo quando discordo e quanto o admiro.
Do confrade amigo e admirador
Alceu Amoroso Lima.
Posted at 11:59 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, July 19, 2009
Não tive tempo.
Posted at 12:33 am by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, July 12, 2009
A França, a Doce e Culta França
Não parece ao leitor, como a mim, que a língua da última decadência latina – extremo suspiro de uma pessoa robusta já transformada e preparada para a vida espiritual – se mostra singularmente adequada a expressar paixão tal como a compreende e sente o mundo poético moderno? O misticismo é outro pólo deste imã de que Catulo e seu bando, poeta grosseiros e puramente epidérmicos, conheceram apenas o pólo da sensualidade. Nesta maravilhosa língua, o solecismo e o barbarismo me parecem evocar as negligências impostas por uma paixão que se esquece e zomba das regras. As palavras, tomadas numa nova acepção, revelam a encantadora inépcia do bárbaro setentrional ajoelhado diante da beleza romana. O próprio trocadilho, quando se infiltra nesses balbucios pedantes, não revelaria a graça selvagem e barroca da infância?Essa nota não é minha, quem me dera... é do grande Charles Baudelaire, paixão adolescente minha. É uma nota ao poema Franciscae meae laudes. Tirei de uma edição de " As Flores do Mal", da Nova Fronteira, de 2006. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Eu tenho lido muitos franceses, ultimamente, Flaubert, Maupassant, Baudelaire... Será a maior literatura do mundo, a francesa? Sim, é certo, por uma boa razão: Os outros países devem muito mais à literatura francesa que a França deve à literatura dos outros países. Guimarães Rosa e Machado de Assis não seriam possíveis sem Proust e Flaubert. E sem Baudelaire e Flaubert não seria possível modernismo, em país nenhum. Como toda regra tem exceção (e não vou negar isso, claro), podem dizer (também não vou negar) que Albert Camus aprendeu muito com Dostoievski, que a literatura francesa contemporânea deve muito a Franz Kafka, e que muitos estrangeiros ( Samuel Beckett, E.M. Cioran, August Strindberg, Arthur Koestler e outros) escreveram em francês grandes obras, etc. Sim, é verdade, e entra na cota do muito que a França deve ao mundo. O que quero dizer é que, mesmo que a dívida da França aos outros países seja grande, como de fato é, a divida dos outros países à França é muito maior. Eu teria dificuldade de pensar em um grande escritor que pouco deve aos franceses. Na verdade, talvez o único escritor moderno que nada deve, pelo menos não diretamente, aos franceses é Hemingway. Um bom escritor, que cansa logo. Quem agüenta lê-lo, depois de certo tempo? Podemos suspeitar, mesmo que admiremos Hemingway, que ele teria sido muito melhor se tivesse seguido o conselho de Ezra Pound e lido menos escritores russos e mais escritores franceses. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Um escrito parecido com Hemingway é Maupassant (já que estamos falando de Hemingway e Maupassant...). Não acredito que Hemingway tenha sido influenciado por Maupassant, mas se Maupassant tivesse vivido depois de Hemingway e não antes, eu sem dúvida acharia que Hemingway o influenciou. O velho mestre Otto Maria Carpeaux escreveu que Thomas Mann lhe parecia Nietzsche querendo ser Flaubert. Maupassant me parece ser Hemingway querendo ser Flaubert. Ou talvez seja melhor dizer "me pareceria", se Maupassant não fosse duas ou três gerações anterior a Hemingway. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
E, já que também falamos em Otto Maria Carpeaux, convém lembrar que ele se chamava Otto Maria Karpfen, e afrancesou seu nome para Carpeaux, depois, quando se radicou no Brasil, fugindo do nazismo. O que é, naturalmente, mais uma prova da grande e profunda influência da literatura francesa. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Para terminar, na nota de Baudelaire muito me fascinou o adjetivo "Epidérmico", e fiz uma pesquisa, onde descobri esse adjetivo sendo usado por Carla Bruni, atual primeira dama da França: Carla Bruni -Sarkozy assume que apesar de não responder a uma ideologia ou a um sistema os seus 'reflexos epidérmicos são de esquerda'. Bem, eu continuo adorando a literatura francesa. (Além do mais, talvez seja um problema de tradução, tanto no caso de Carla Bruni quanto no caso de Baudelaire). * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Ciganos em Port-en-Bessin, 1883, quadro de Paul Signac.
Posted at 10:55 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, June 21, 2009
Eu acho que terei tempo para escrever no dia 12 de julho. Até lá, portanto.
Posted at 11:59 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, June 14, 2009
Posted at 05:48 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, May 31, 2009
Literatura, Política, Sociedade, e um Quadro Théodore Gericault
Em 20 de abril de 1890, Émile Zola recebia, em seu novo apartamento da Rue Bruxelles, em Paris, um jornalista do New York Herald Tribune (hoje International Herald Tribune) e lhe apresentava as seguintes proposições: "Estou trabalhando em um romance, L'Argent |O Dinheiro|, que tratará de questões referentes ao Capital, Trabalho, etc., nesse momento em fase de ebulição entre as classes descontentes na Europa. Minha posição será de que a especulação é uma coisa boa, sem a qual as grandes industrias do mundo seriam extintas, assim como a população seria extinta se não houvesse a atração sexual. Atualmente, os rosnados e grunhidos que emanam dos núcleos socialistas são o prenúncio de uma erupção que modificará mais ou menos as condições sociais existentes. Mas será que podemos dizer que o mundo ficou melhor por obra da nossa grande Revolução? Por acaso os homens são agora, por pouco que seja, realmente mais iguais do que há cem anos? Será possível dar a um homem a garantia de que sua mulher jamais irá enganá-lo? Será que podemos fazer com que todos os homens sejam igualmente felizes ou igualmente sábios? Não! Então vamos parar de falar em igualdade! Liberdade, sim; fraternidade, sim; mas igualdade, jamais!" (do International Herald Tribune de 21 de abril de 1990, na coluna "Há cem anos", citado por Jean-François Revel, em "A Grande Parada", p. 216)
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Do blog de um fã do Carlos Drummond de Andrade (tudo bem, eu também sou):
Drummond, o simples. Uma vez um colega, também mineiro, que viera transferido para Natal, me disse que quando trabalhava no Rio, viu muitas vezes o Poeta esperando pacientemente numa fila enorme para ser entendido (sic). Aqui nesta cidade do Natal existe poeta que não tem condição de amarrar os cordões dos sapatos de Drummond que jamais passaria pelo desconforto de passar muito tempo numa fila. E ele há muito um nome consagrado, reverenciado até pela crítica estrangeira. Quando quiseram colocar uma placa com o seu nome na rua onde morava em Copacabana, não houve quem o fizesse aceitar essa pequena, mas justa, homenagem. Também recusou o prêmio de Intelectual do Ano que lhe outorgaram em certa ocasião. E convidado dezenas de vezes para ingressar na Academia Brasileira de Letras, manteve-se firme na sua decisão de não se tornar um "imortal".
Quanto ao Drummond não querer entrar para a ABL, bem, quando Getúlio Vargas foi candidato (por um livro que alguém escreveu para ele) Carlos Drummond de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda (que foi da Academia Paulista de Letras), Érico Veríssimo e Gilberto Freyre (que foi da Academia Pernanbucana de Letras) disseram aos acadêmicos que se Vargas fosse eleito nenhum deles entraria para a ABL. Vargas foi eleito, os quatro cumpriram a promessa: nenhum deles quis ser membro da ABL, depois disso.
Estranho que tão pouca gente cite isso quando se fala da aversão de Drummond à Academia. Acho que o único que lembra essa história é o Hélio Fernandes (que agora escreve em um blog, vejam só). Talvez seja o que chamam uma "história apócrifa". O fato é que nenhum dos quatro quis ser acadêmico.
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Vale a pena falar um pouco mais da ABL: Rachel de Queiroz, no princípio, não tinha intenção nenhuma de ser uma acadêmica, mas suas amigas escritoras tinham. E elas nunca seriam eleitas, a Acadêmia Brasileira de Letras, como a Academia Francesa, não aceitava mulheres naquele tempo. Eles admitiam abrir uma exceção para a Rachel, se ela quisesse. As outras escritoras, então, convenceram a Rachel a se candidatar, para fazer um favor às amigas (que assim poderiam entrar, depois). Rachel de Queiroz foi eleita, e acabou sendo uma acadêmica até muito atuante. (Na Acadêmia Francesa, a primeira mulher admitida foi Marguerite Yourcenar, embora, segundo Paulo Francis, os acadêmicos franceses preferissem Simone de Beauvoir, mas se a convidassem levariam um não na cara, como Sartre recusou o prêmio Nobel...).
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Ainda sobre a ABL: o romancista José Jacinto Veiga não entendia porque seus amigos escritores queriam tanto ir para a Acadêmia, até que em uma entrevista a VEJA disse ter descoberto a razão: uma vez na Acadêmia, eles sabiam que não seriam molestados pelos militares (era no tempo do regime militar), porque os militares respeitavam a Acadêmia. Por isso, eles se candidatavam e se tornavam acadêmicos: para serem deixados em paz pelo regime militar.
A Acadêmia é uma instituição sui-generis, respeitada pelos militares, pelos professores esquerdistas (super-fãs do Oswald de Andrade, não sei como conseguem conciliar a admiração deles pelo Oswald com tal respeito quase religioso pela ABL, mas senso de ridículo e coerência nunca foram o forte desse pessoal), por Getúlio Vargas, e onde José Sarney tem uma enorme influência. Quatro coisas impedem o Rio de Janeiro de ser desprezado pelo resto do Brasil: a Rede Globo, a Petrobras, os times de futebol (os mais populares do Brasil estão no Rio) e a Acadêmia Brasileira de Letras. A Rede Globo provavelmente se mudará para São Paulo nos próximos 10 anos, a Petrobras tem data marcada para perder sua importância (será no dia em que descobrirem, enfim, uma alternativa economicamente viável ao petróleo – não, ninguém irá criar uma Petrobras para o álcool ou para o hidrogênio, ou outra alternativa que aparecer), os times de futebol do Rio estão cada vez piores e o próprio futebol no Brasil é cada vez menos interessante. Resta a ABL. Será que ela sustentará o prestígio do Rio de Janeiro sozinha? Bem, espero que os cariocas criem algo melhor até lá.
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Posted at 11:34 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, May 24, 2009
Arte, política, futebol e Mary Cassatt
“Todas as comédias de Aristófanes têm assunto político. Nos Acharnes, Dikaiopolis, adversário da política guerreira, faz a sua paz em separado com o inimigo para celebrar as festas de Dionisio. Em Os Cavaleiros, o demagogo Cleon oprime o Demos, personificação do povo maltratado. Em A Paz, Eirene, a personificação da paz, é entronizada como hetera alegre, e os oradores belicosos e os fornecedores de armamentos são expulsos. Em Atenas, o partido conservador era pacifista; temeu a agitação social. E Aristófanes zombou, em Os Pássaros, dos projetos utopistas dos demagogos: Euelpides e Peithetairos fazem uma viagem maravilhosa para Nephelococcygia, “a cidade das nuvens”. De todos os assuntos, Aristófanes vê só o lado político: Eurípides aparecendo, em As Rãs, pessoalmente, no palco, é o corruptor daquela venerável instituição política que era o teatro, e Sócrates, em As Nuvens, é o corruptor de outra instituição do Estado totalitário ateniense, da educação. Aristófanes é conservador: o seu ideal é a identificação de Estado e Religião, como em Ésquilo; de corpo e espírito, como em Píndaro. Odeia o espiritualista Sócrates e o individualista Eurípides. Se eles vencessem, a tirania da Cidade, nas mãos desses homens desequilibrados, seria pior ainda. O homem decente, o conservador que gosta das letras, da boa vida e da ordem tradicional, já não sabe como salvar-se; porque a “cidade nas nuvens”, sonho dos demagogos, não existe. Aristófanes sente-se exilado na sua pátria; o espírito expulso torna-se esprit, malícia, Tersites em luta contra os usurpadores. Contudo, Aristófanes tem menos motivos de queixa do que parece: na sua Atenas, democracia totalitária , mas democracia, goza, pelo menos, de uma absoluta “liberdade de imprensa”. Pode dizer tudo. E na pequena cidade onde todos se conhecem pessoalmente, Aristófanes aproveita-se dessa liberdade para atacar diretamente os adversários: cita-lhes, nas peças, os nomes, desvendando-lhes os escândalos da atuação política e da vida particular, com espírito insolentíssimo e crueldade incrível. É a sátira mais pessoal, mas direta que existe. Aristófanes não é profundo. Não tem ideologia bem definida. O seu conservadorismo é um tanto sentimental, elogiando os “bons velhos tempos” e denunciando o modernismo perigoso dos “intelectuais” e dos “socialistas”; são sujeitos poderosos, mas que não valem nada. São malandros, que usurpam o nome e a ideologia dos partidos. Contra eles, Aristófanes não defende uma ideologia, e sim o sentimento moral, ofendido, de um burguês decente, embora de expressão indecentíssima. Pois também nunca se ouviu poeta tão francamente obsceno, chamando todas as coisas pelos nomes certos.” (Otto Maria Carpeaux, em História da Literatura Ocidental, páginas 69 e 71, volume I). É uma pena que nem todo artista se metendo em política seja como Aristófanes. Na verdade, a maioria detesta ver seus partidos serem julgados pelos mesmos critérios que usam para julgar os partidos dos outros. Como chamar a isso, senão de hipocrisia? * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * “E já me ocorre um incidente parlamentar que ouvi contar na minha infância. Era no velho Senado. Pinheiro Machado está na tribuna. Fala, fala com a nobre insolência gaúcha. Mais adiante está Rui Barbosa, “o maior dos brasileiros vivos”. De repente Pinheiro Machado diz: — “Se eu me manter”. Rui cortou, com triunfante crueldade: — “Decerto Vossa Excelência quer dizer ‘mantiver’”. A lambada doeu na carne e no brio do caudilho. Vacila ou nem isso; deu a resposta fulminante: — “Vossa Excelência pode me corrigir, e é bom que o faça. Pois, enquanto Vossa Excelência aprendia a falar certo e bonito, eu matava e morria na Guerra do Paraguai”. ” (Nelson Rodrigues, em O Obvio Ululante, página 17). * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * E o Vasco da Gama, quem diria! Está na semifinal da copa do Brasil, único grande do Rio a chegar lá (além de liderar a serie B). Será que pode ganhar do Corinthians? Poder, pode, mas não é favorito. Eu noto uma empolgação dos vascaínos, e de fato o time deste ano é muito melhor que os dos últimos cinco anos, pelo menos. Mas, pés no chão, torcida vascaína! Vamos analisar com frieza: Temos uma boa defesa, sim, e temos atacantes de muita raça e velocidade, mas pouco talento. E temos um criador e um organizador no meio campo, Carlos Alberto, mas é só ele. É pouco para ser um grande time. Estamos a léguas de distância de um supertime. Então, o que temos é bom, mas é pouco. Temos que ter frieza, nessa hora. Vejamos os grandes times do Brasil, fora o Vasco? Por ordem alfabética: Atlético Mineiro, Atlético Paranaense, Botafogo, Coritiba, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo (argh!), Fluminense, Goias, Grêmio, Internacional, Náutico, Palmeiras, Santos, São Paulo, Sport e Vitória. Forçando a barra, podemos incluir Bahia, Guarani, Ponte Preta e Portuguesa. Forçando muito a barra, entram Avaí, Figueirense, Paraná, Santo André e São Caetano. Talvez tenha ficado algum grande de fora, mas com certeza não é muito melhor do que os citados. Então, vejamos: o Vasco pode ganhar de quantos? De todos, sim, pode ganhar – e não seria uma grande zebra se ganhasse, considerando o time que tem hoje, e os timos dos adversários, uma vitória do Vasco seria um resultado normal. Agora, se a pergunta for “da lista acima, contra quantos times o Vasco seria favorito?”, aí a resposta é mais complicada... Eu diria que mais da metade jogaria como favorito, contra o Vasco da Gama. Eu citei 26 times. Eu acho que, dos 26, 13 ou 14 seriam favoritos, num jogo contra o Vasco. Um dos favoritos, o Corinthians, jogará contra o Vasco na próxima quarta-feira. Que venha o Corinthians! O Vasco pode ganhar, e seria um resultado normal. Mas é mais provável que perca. Quanto a mim, eu penso: deve perder, mas perderá com honra, se perder. Sem humilhar sua própria torcida. Não temos um supertime, mas temos motivos para nos orgulhar do time que temos. E, quem sabe, podemos ter algo muito importante, que nos faltou no ano passado: sorte. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * No último dia 22, Mary Cassatt, a pintora franco-americana, morta em 1926, fez aniversário. Abaixo, seu auto-retrato:  Mais quadros de Mary Cassatt aqui.
Posted at 02:16 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, May 17, 2009
Não tive tempo nem para dizer que não tive tempo... mas terei no próximo domingo.
Posted at 10:45 pm by Flamarion Daia Júnior
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