Wednesday, April 29, 2015
Debate Sobre Nelson Rodrigues

Bom, começou assim:

Adam Smith e David Hume deixaram claro, entretanto, que o mercado, que é a única solução conhecida para o problema da coordenação econômica, depende ele próprio do tipo de ordem moral que emerge de baixo, quando as pessoas se responsabilizam por suas vidas, aprendem a honrar seus acordos e vivem em justiça e caridade com seus vizinhos.

E meu amigo comentou:

A teoria economica de Adam Smith serviu de base ao marxismo e já foi refutada há muito tempo, pelos proprios economistas liberais. Quanto a David Hume, de fato era conservador em politica (não sei se sinceramente ou se apenas para ganhar a confiança da classe dominante da epoca para suas ideias ousadas no campo da moral, tal como o nosso Nelson Rodrigues), mas foi o grande destruidor da metafisica que possibilitou a obra de Kant, base filosofica da contemporaneidade e de sua anarquia espiritual, sem a qual também não haveria Hegel, Marx ou comunismo.

Então eu comentei:

"Quanto a David Hume, de fato era conservador em politica (não sei se sinceramente ou se apenas para ganhar a confiança da classe dominante da epoca para suas ideias ousadas no campo da moral, tal como o nosso Nelson Rodrigues), mas foi o grande destruidor da metafisica que possibilitou a obra de Kant, base filosofica da contemporaneidade e de sua anarquia espiritual, sem a qual também não haveria Hegel, Marx ou comunismo."

Não li o Hume, mas do Nelson eu manjo. E se o Nelson queria ganhar a confiança da classe dominante para suas idéias ousadas no campo da moral, ele fracassou redondamente. De fato, se há algo que Nelson pouco teve em vida foi apoio da elite cultural, ou econômica (ele teve apoio de alguns riquinhos para montar "Vestido de Noiva", mas foi muito antes dele divulgar suas ideias conservadoras). E a principal razão foi justamente o seu conservadorismo político. O Nelson perdeu sendo conservador, ele não ganhou.

Acho que o único conservador que apoiou o Nelson (depois de anos e anos de polêmicas amargas) foi o Gustavo Corção. Alguém conhece outro?

E o que são as idéias ousadas do Nelson no campo da moral? Ele acreditava basicamente em duas coisas (considerando suas peças): 1) O homem é escravo de seus instintos mais repugnantes; e 2) Por isso, a condição humana é essencialmente trágica. É o que suas peças, quase todas, mostram.

Ele não era um escritor cristão, verdade seja dita, porque não acreditava na possibilidade de redenção dos homens. Não há um Aliocha ou um Michkin em suas peças, há apenas Raskolnikovs que, ao contrário do original russo, não têm possibilidade de redenção. Os sórdidos de Nelson Rodrigues são sórdidos até o fim, para Nelson apenas as conveniências sociais os impedem de se degradarem na vista de todos, como se degradam nos bastidores. Mas no final as conveniências sociais são incapazes de salvá-los de um destino trágico.

Essas idéias de Nelson Rodrigues combinam muito bem com uma doutrina conservadora: As convenções sociais, a vida em sociedade, elas são muito úteis para impedir que o ser humano sucumba a seus mais sórdidos instintos. Em alguns momentos, no entanto, esses sórdidos instintos superam as convenções sociais e isso tem resultados trágicos. Mesmo assim, na maior parte do tempo, os seres humanos são capazes de se conterem e levar uma vida razoável, monótona e produtiva, pelo respeito que têm às convenções sociais. Se for ver, não há nada de ousado nas idéias de Nelson Rodrigues. E, no fundo, há apenas uma coisa errada: a falta de crença na possibilidade de redenção.

Mas se quando falamos de "Idéias ousadas no campo da moral" estivermos falando das situações bizarras que o dramaturgo colocava em cena, então não se trata de moral. Se trata de obras teatrais ousadas. Que nem mesmo são novidade. (Exceto talvez na nudez em cena, mas isso é uma questão de forma, não de conteúdo). Já existiam muitas das bizarrices de Nelson Rodrigues no antigo teatro grego. E ninguém acha estranho e muito menos "não conservador" quando uma peça de Eurípedes ou Sófocles é montada sem cortes.

Sabiam que nas peças do Nelson Rodrigues existem poucos palavrões? Um dos charmes do Nelson é esse: Ele cria situações sórdidas e bizarras, mas sua linguagem é de mocinha de família.


E aí, meu amigo respondeu:

Nelson Rodrigues fracassou? Não é isso que os fatos mostram. O Anjo Pornografico nunca teve problemas nem com o Estado Novo, nem com o regime militar. Pelo contrario, uma de suas peças mais sordidas, Album de Familia, foi proibida em 1946 pela censura da democracia e teve de esperar até 1965, quando a censura da ditadura, em plena vigencia dos atos institucionais, liberou-a para o bem da familia brasileira: http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81lbum_de_Fam%C3%ADlia

Tá vendo como vale a pena puxar o saco dos milicos? Aqui tem um artigo que faz a comparação do tratamento dado pela censura do regime militar ao anticomunista Nelson Rodrigues e ao esquerdista Oduvaldo Vianna Filho: http://www.revistas.usp.br/anagrama/article/view/35606/38325

Nelson Rodrigues ganhou dinheiro com suas peças (o que é exceção entre os grandes escritores brasileiros) e foi consagrado ainda em vida. Nelson Rodrigues está para o teatro brasileiro como Oscar Niemeyer para a arquitetura, inclusive na velhacaria ideologica: enquanto Niemeyer era comunista para ser incensado como "genio" pela claque do movimento comunista internacional, Rodrigues era anticomunista para escapar da fatalidade da censura. No fundo, acho que o comunismo de Niemeyer valia tanto quanto o anticomunismo de Rodrigues: o valor de suas conveniencias e interesses pessoais. Quando o Niemeyer morreu, o Reinaldo Azevedo escreveu que ele era metade genio e metade idiota. Nem uma coisa nem outra: Niemeyer não era genio (acho as obras dele uma porcaria, tal como as de Nelson Rodrigues), e sua opção ideologica não era por idiotice, mas por esperteza mesmo. No fundo, Niemeyer e Rodrigues foram dois velhacos que conseguiram convencer boa parte da classe letrada brasileira de que eram genios -- inclusive o Reinaldo Azevedo. Aliás, a mesma ditadura que liberava as peças pornograficas de Nelson Rodrigues executava os projetos não menos pornograficos de Niemeyer. Nelson, pelo menos tinha uma vantagem sobre Niemeyer: apesar de hipocrita, era otimo frasista.

E ambos não apenas foram consagrados e incensados em vida, como suas obras continuam aí, a assombrar os postumos. Toda a teledramaturgia da TV Globo depende intelectualmente de Nelson Rodrigues. Parece até que o destino da Venus Platinada é pecar. E o resultado até a BBC já documentou: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/01/090130_noveladivorciobrasil_np_tc2.shtml

O proprio beijo gay na TV escandaliza menos quando se vê precedido por um Beijo no Asfalto....

Não é que Nelson Rodrigues não acreditava na possibilidade de redenção. É que ele detestava a familia. A familia, nas peças de Nelson, é o ambiente das piores canalhices. A imagem que tem a familia nas peças de Nelson Rodrigues -- como nas novelas da Globo -- é a pior possivel. A familia rodrigueana é simplesmente repugnante, é a familia do pai que prostitui as filhas. E nem se compare com as tragedias gregas: como diz Aristoteles em sua Poetica (c. V, n. 24), a tragedia visa mostrar homens superiores ao comum dos mortais, em situações-limite que provocam no espectador terror e/ou piedade. As peças de Nelson Rodrigues não contam com heróis, com homens superiores. Seus personagens são uns mediocres, quando não são pervertidos são uns covardes ou estupidos, só provocam repugnancia, inclusive quando são as vitimas ou os mocinhos da historia.

É por isso que a esquerda descolada adora Nelson Rodrigues, que é apontado como o "genio" do teatro brasileiro do seculo XX em qualquer manualzinho de literatura para o ensino medio. Manuais que, por outro lado, nem sequer citam o nome de Corção -- nisso não dá pra criticar a esquerda, eles sabem identificar muito bem o que lhes serve. Corção, aliás, só apoiou Nelson Rodrigues quando já estava lelé.

Se esse teatro do mundo cão combina com uma doutrina conservadora, esse é um conservadorismo que não me interessa. Ai, "as convenções sociais"... que permitem aos seres humanos se conterem e levarem uma vida razoavel, monotona e produtiva. Se tudo o que o conservadorismo tem a oferecer aos homens é "uma vida razoavel, monotona e produtiva", eu prefiro a Revolução -- como preferirá qualquer homem que se percebe algo mais que um animal. Esse conservadorismo à la Montaigne é a direita que a esquerda gosta, porque não tem outro argumento senão o "sempre fizemos assim". Contra esse conservadorismo se levantaram Socrates e o Cristo. O cristianismo em seu estado puro tem certo problema com as convenções sociais -- eu sou discipulo d'Aquele que disse: "Ouvistes o que foi dito aos antigos, eu, porém, vos digo..."

Se o socialismo é uma utopia subversora da propriedade e da familia, nenhum intelectual brasileiro fez mais pelo socialismo do que Nelson Rodrigues.

«No teatro exploram-se os temas mais morbidos. Os estudos realizados pela psicologia em profundidade forneceram um copioso material para subinteligencias criarem um teatro em que os heróis são desajustados, neuroticos, loucos morais, angustiados de todos os graus, temperamentos em frangalhos, personalidades em decomposição, pessoas de carater equivoco e mal formado, situações das mais insolitas, intrigas que só a mente de um louco poderia criar, pois esse teatro está mais proximo dos hospicios que do bom senso, e tudo isso é apresentado como arte, como sublime arte. Essas peças equivocas em que personagens dizem asnices em alto tom e que uma plateia ignorante considera sentenças de "alta filosofia", em que o dialogo é um amontoado de lugares comuns, que mais deveriam fazer rir do que pensar, tudo isso recebe o louvor de uma critica de mente estropiada, e é exaltado ao maximo» (Mario Ferreira dos SANTOS, A Invasão Vertical dos Barbaros).

Graça e paz,

Senhor P. (é uma pena que o senhor P não me autorize a dizer o nome dele, mas ele deve ter suas razões).

E aí, eu novamente repliquei:


Caro amigo Senhor P., veja o que você disse e o que eu respondi:

"Quanto a David Hume, de fato era conservador em politica (não sei se sinceramente ou se apenas para ganhar a confiança da classe dominante da epoca para suas ideias ousadas no campo da moral, tal como o nosso Nelson Rodrigues)."

“Não li o Hume, mas do Nelson eu manjo. E se o Nelson queria ganhar a confiança da classe dominante para suas idéias ousadas no campo da moral, ele fracassou redondamente.”

“Nelson Rodrigues fracassou? Não é isso que os fatos mostram.” Que fatos, caro Senhor P? Não os que conheço.

“O Anjo Pornografico nunca teve problemas nem com o Estado Novo, nem com o regime militar.” Não teve? “O Casamento”, romance que estava tendo um grande sucesso de vendas – e detalhe: na época, 1966, os livros de ficção estavam isentos de censura. Ou seja, a censura ao livro do Nelson foi um caso especial, contra ele. E quanto ao Estado Novo (nem vou discutir se o regime era conservador), o que havia para censurar? No começo da carreira, Nelson era um desconhecido, ainda que filho de um pai famoso, e sua obra era até bastante recatada em comparação ao que escreveria depois. O certo é que Nelson Rodrigues não defendia o conservadorismo no tempo do Estado Novo.

Sigo lendo o artigo da revista da USP enquanto escrevo. O autor é tão bem informado que chama o romance “O Casamento” de peça. E atribui a vitória do Nelson na justiça, para liberar seu romance, a seus contatos com os poderosos e ao seu conservadorismo. Sem nunca dá uma prova disso. A mim, parece que ele ganhou na justiça porque a lei estava do lado dele. Alias, o autor do artigo também diz que o Nelson ir à justiça no tempo do regime militar é o mesmo que reconhecer a legitimidade do regime militar. Eu digo que o autor do artigo da revista da USP é um idiota.

“Nelson Rodrigues ganhou dinheiro com suas peças (o que é exceção entre os grandes escritores brasileiros) e foi consagrado ainda em vida.” Nossa, que grande pecado! É aquela história, artista só presta quando passa fome pela arte. Mas talvez você, meu caro amigo, esteja atribuindo isso ao “sucesso” dele em ganhar o apoio dos conservadores. Acho melhor procurar outra razão, porque quando ele se destacou como cronista reacionário ele já não escrevia muitas peças. A maioria de sua produção teatral, inclusive todas suas melhores peças, é anterior ao regime militar.

O anticomunismo do Nelson era sincero. Tá lá na página 298 da biografia dele:

“Entre perguntas simpáticas sobre seu estado, Pinheiro Jr., com a maior delicadeza, quis saber:
‘Nelson, supondo que você tivesse de dizer suas últimas palavras, quais teriam sido?’
Não se sabe se Nelson achou aquilo uma piada de necrotério; se quis provocar a redação de ‘Última Hora’, que certamente encomendara a pergunta; ou se teve outro motivo. Mas ficou sério e disse:
‘Você promete que publica?’
O repórter fez que sim e molhou o lápis na ponta da língua. E Nelson, ardendo em febre:
‘Então anota: ‘Que besta graduada era o Carlos Marx!’.’
Pinheiro Jr. anotou — e, surpreendentemente, a frase de Nelson ultrapassou incólume as brigadas marxistas de ‘Última Hora’ e saiu no dia seguinte, 12 de dezembro de 1958.”

Pois é, em 1958, o presidente era o Juscelino. O Nelson já era antimarxista. Ele era antimarxista por que via o fracasso econômico e cultural dos países comunistas. Ele era antimarxista porque abominava a ideia de viver num país marxista. Ele era antimarxista porque ele via o que a politização esquerdista estava fazendo com as artes no Brasil em geral e com o teatro brasileiro em particular, desumanizando tudo. Ele não era antimarxista para conseguir o apoio dos conservadores. Que apoio o Nelson conseguiu dos conservadores em 1961? Em 1961, quando ele escreveu isso:

“O Brasil atravessa um instante muito divertido de sua história. Hoje em dia, chamar um brasileiro de reacionário é pior do que xingar a mãe. Não há mais direita nem centro: — só há esquerda neste país. Perguntem ao professor Gudin: — ‘Você é reacionário?’. Sua resposta será um tiro. Insisto: — o brasileiro só é direitista entre quatro paredes e de luz apagada. Cá fora, porém, está sempre disposto a beber o sangue da burguesia. Pois bem. Ao contrário de setenta milhões de patrícios, eu me sinto capaz de trepar numa mesa e anunciar gloriosamente: — ‘Sou o único reacionário do Brasil!’. E, com efeito, agrada-me ser xingado de reacionário. É o que eu sou, amigos, é o que sou. Por toda parte, olham-me, apalpam-me, farejam-me como uma exceção vergonhosa. Meus colegas são todos, e ferozmente, revolucionários sanguinolentos. Ao passo que eu ganho, eu recebo da Reação.
E, no entanto, vejam vocês: — como é burra a burguesia! Eu, com todo o meu reacionarismo, confesso e brutal, sou o único autor perseguido do Brasil, o único autor interditado, o único que, até hoje, não mereceu jamais um mísero prêmio. Pois bem. Enquanto a classe dominante me trata a pontapés e me nega tudo — que faz com os outros? Sim, que faz com os autores altamente politizados? Amigos, eis o equívoco engraçadíssimo: — a burguesia os trata a pires de leite, como gatas de luxo. O Dias Gomes, com o seu ‘Pagador de promessas’, fez um rapa de prêmios. O Flávio Rangel não dá um espirro sem que lhe caia um prêmio na cabeça. O meu amigo Augusto Boal, premiado. O Vianinha, premiadíssimo.”

E quanto à sua crítica à família - na vida real a família é o ambiente das piores canalhices. Não, não é porque o Nelson inventou, é porque é. Ele usou o que ele viu. Ele não detestava a família, ela tinha uma visão trágica da família. Ele dizia que as mulheres gostam de apanhar porque ele viu uma mulher que apanhou e adorou na vida real. Ele mostrava as maiores barbaridades acontecendo dentro do lar, mas não para fazer propaganda contra o lar. Ele mostrava as maiores barbaridades acontecendo dentro do lar porque muitas das maiores barbaridades acontecem dentro do lar. No Brasil em que Nelson Rodrigues nasceu, o duelo ainda era uma saída honrada para resolver disputas, os poderosos mandavam matar seus desafetos contando (com razão) com a impunidade judicial e os casamentos eram estupros legalizados entre senhores quarentões e meninas de 12, 13 ou 14 anos. Um país bárbaro. Ler Gilberto Freyre é importante e necessário, claro. Mas leia também Aluisio Azevedo, Lima Barreto, Paulo Prado, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Monteiro Lobato, Ronaldo Vainfas, Afonso Arinos, José Lins do Rego... E que tal Guimarães Rosa? Nos contos de Guimarães Rosa, há zoofilia (sexo com animais) e canibalismo. Mas o Guimarães Rosa tem uma grande diferença de Nelson Rodrigues: ele acredita em redenção.

Numa coisa, você tem razão: os personagens de Nelson, a grande maioria, são uns medíocres, quando não são pervertidos são uns covardes ou estúpidos. Por isso, eu o acho melhor nas comédias que nas tragédias. “Dorotéia” é hilariante. “Bonitinha, mas ordinária” e “Viúva, mas honesta”, são boas, também. Mas mesmo nas tragédias, que tal Moema, a intrigante que destrói a própria família e termina louca, em “Senhora dos Afogados”? Ou Ritinha, a mocinha que se prostitui para sustentar a mãe e as irmãs, em “Bonitinha, mas ordinária”? As personagens femininas de Nelson são as melhores da literatura brasileira.

E Jonas, o grande patriarca de “Álbum de Família”, é o maior vilão da literatura brasileira, o homem que se brutaliza e afunda na sordidez por causa de seu amor pela própria filha, amor que ele quer reprimir de qualquer maneira. Ele é um homem poderoso, de paixões extremas, e procurando evitar o pior, que seria consumar sua paixão pela filha, ele espalha violência e sordidez a sua volta, até que no final perde a filha e se deixa matar pela esposa, pois já não ver sentido em viver. É um grande vilão, que nada deixa a não ser morte e destruição de sua passagem pelo mundo, e tem um final lamentável e não lamentado, morto pela própria mulher diante do caixão da filha de ambos. É um personagem trágico, porque é, sim, superior a maioria dos mortais, não moralmente, claro, mas em termos de vontade e capacidade de controlar. A necessidade de reprimir seu amor pela filha o fazia poderoso e temido. Sem isso, só resta morrer. Um grande vilão, nessa literatura brasileira que tem tão poucos vilões (admito que não li todos os bons livros da literatura brasileira, se você puder me citar algum grande vilão que não conheço eu agradeceria), e os poucos que têm nem são personagens, mas caricaturas. Já o Jonas de “Álbum de Família” é um dos maiores vilões da literatura mundial. Dostoievsky e Shakespeare tem vilões melhores, mas só eles. A peça “Album de Família”, em si, é ruim, por causa do excesso de incesto e também porque os outros personagens não estão a altura da grandeza demoníaca e autodestrutiva de Jonas.

E é claro que você tem direito de não gostar da obra de Nelson Rodrigues, muita gente inteligente não gosta. Mas eu acho que seria melhor ler antes de criticar, pelo menos. “O beijo no asfalto” não foi um beijo gay. E nem faz muito sentido atribuir os recentes “beijos gays” das novelas da globo a uma peça escrita cinquenta anos antes dessa moda de beijos gays. O politicamente correto de Hollywood é o verdadeiro culpado disso, teríamos muitos casos de amor entre casais do mesmo sexo mesmo sem “O Beijo no Asfalto”.

“Se esse teatro do mundo cão combina com uma doutrina conservadora, esse é um conservadorismo que não me interessa.” O que eu acho certo. Não é porque uma doutrina é conservadora que ela está correta. Dois exemplos: o inglês que acha que a Inglaterra deve conservar Gibraltar e o argentino que defende que seu país continue reivindicando as ilhas Falkland. As duas posições são conservadoras, do ponto de vista inglês e argentino, e as duas estão erradas. As “tendências conservadoras” nas peças de Nelson Rodrigues (não acho muito certo chamar de “doutrina” por que o Nelson não tinha pretensões intelectuais e nunca pretendeu criar um sistema ideológico) tendem a um conservadorismo, mas dependem de duas coisas, primeiro de certa leitura crítica de suas peças (como a leitura que eu faço), e segundo do cansaço moral leitor ou do espectador de Nelson. É um conservadorismo de gente conformada, e mais do que conformada, cansada. De pessoas que viveram intensas, desgastantes e infelizes paixões na juventude, e na idade madura renunciaram a elas. Pessoas que entendem que as paixões são fontes de remorsos, decepções, nojo e amargura, e entendem isso porque viveram paixões. E não querem vivê-las de novo. Em Nelson Rodrigues, como na vida real, as paixões quase nunca deixam algo útil e bom, que possamos relembrar com serenidade e orgulho na velhice. E o leitor ou o espectador que entender isso, e agir de acordo, esse tende ao conservadorismo. É um conservadorismo de velhos cínicos e cansados de viver, mais ainda assim é um conservadorismo. Eu não gosto desse conservadorismo, mas não vou deixar de reconhecer que é conservadorismo porque eu não gosto dele.

Posted at 12:34 pm by Flamarion Daia Júnior

 

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