Hoje, não tem pintura. Em vez disso, um trecho de um dos melhores blogs da história, o diário (blog?) de
Edmund Wilson, "Os Anos 20", publicado no Brasil pela Companhia das Letras, em 1987 (não sei se houve uma segunda edição, mas duvido muito – o livro é muito bom para isso).
"Califórnia: Serras de um rosa-pálido sob céu azul-pálido sem nuvens – verde-sopa – terra marcada por tocos e montanhas negras com filamentos prateados – um rio prateado – os laranjais de um verde escuro e metálico orlado de alaranjado – fragrância seca daquele meio-dia quente e eterno penetrando o trem fechado – as estações ensolaradas, que lembram missões. Animação inesperada ao chegar nessa terra pela primeira vez em março.[(1) No trem, li Electra de Sófocles no original (2). Como minha leitura era em ritmo bem lento (3), senti um certo suspense nervoso quando se aproximavam os assassinatos. Eu já estava num estado de espírito algo mórbido por estar simultaneamente acompanhando a história de assassinatos horripilantes que haviam ocorrido na Califórnia: um garoto homossexual se aproveitava dos outros garotos que vinham, um por um, trabalhar para ele e sua mãe; quando se cansavam de um garoto, os dois o matavam para que ele não revelasse nada. Enterravam-no na fazenda deles. Na minha cabeça, este caso havia se associado a uma sátira de Anita Loss (4) chamada The better things of life, originalmente publicada como folhetim numa revista. Era supostamente a narrativa de um relações públicas do sul da Califórnia, que tentava, com certo grau de sucesso, disfarçar uma série de assassinatos horripilantes ocorridos na região. Indiferente aos corpos desmembrados que iam sendo encontrados (5), ele anunciava com espalhafato as atrações de Hollywood: o sol, a atmosfera sadia, o otimismo contagiante. Foi somente anos depois que Anita Loss se dispôs a publicar em livro uma versão desta obra. Porém esta versão posterior foi adaptada a uma época diferente, e era muito menos sarcástica do que a original, a qual teria talvez causado escândalo em Hollywood – se bem que fosse uma representante típica do espírito hollywoodiano." (Wilson, Edmund, Os Anos 20, páginas 136 e 137)* * * * * * * * * * * *
(1) Os colchetes também aparecem no original.
(2) É isso mesmo: ele leu no original grego!
(3) Pudera, não?
(4) Todo Edmundo Wilson tem seu dia de Nelson Rodrigues... A propósito, Anita Loss é autora de "Os Homens Preferem as Loiras".
(5) Na edição da Companhia das Letras estava assim: "sue iam sendo encontrados", o que sem dúvida é um erro de revisão – e são muitos erros assim no livro. Como disse, eu duvido que haja uma nova edição. E se houver, eu duvido mais ainda que façam a revisão que o livro precisa.
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Os diários de Edmund Wilson poderiam ser colocados na internet pelos herdeiros dos direitos autorais. Isso seria um bom negócio para mim, como leitor, é claro, e acho que um bom negócio para eles, os herdeiros, também. Diminuiria, talvez, a venda desses diários, embora eu tenha quase certeza que de qualquer forma os diários venderiam pouco e o prejuízo, se houvesse, seria muito pequeno. Mas aumentaria o interesse pelas outras obras do autor, e aumentaria suas respectivas vendas, também, livros como
Rumo a Estação Finlândia,
Os Manuscritos do Mar Morto,
Memórias do Condado de Hecate,
Patriotic Gore, entre outros. No final das contas, os herdeiros fariam melhor negócio colocando os diários de Edmundo Wilson de graça, na Internet.
Eu disse no começo que hoje não tinha pintura, mas mudei de idéia, e coloco um poster de Leo Marfurt, Flying Scotman. É o poster que ilustra a capa de Os Anos 20. E diz bem o que foram os anos 20, para Edmundo Wilson, pelo menos.

Daria um bom banner para o blog de Edmund Wilson.
Mais pôsteres de Leo Marfurt
aqui.