Se um músico acha que sua orquestra é composta de gente mesquinha e canalha, ele não perde a fé na música. Se uma cabeleireira acha que o salão onde trabalha só tem mulheres venenosas, nem por isso ela desiste da idéia de embelezamento. Se uma pessoa que não toca nenhum instrumento nem maneja uma tesoura vê tudo isso de fora, nem por isso passa a falar mal da música e do corte de cabelo. Mas se alguém descobre que uma igreja, que obrigatoriamente é um ambiente social, tem os mesmos problemas dos outros ambientes sociais, então a idéia mesma de religião passa a ser condenada.
Mas não é a mesma coisa, caro Pedro. O objetivo da Igreja é juntar pessoas que querem ser, digamos, "cristãos", o que implica um compromisso ético - cristão não pode ser canalha. Ou até pode, e há muitos, mas por princípio eles têm que tentar não ser. Ao maestro, não importa o caráter do músico desde que ele toque direito e no rítmo que o maestro ditar, não é assim? Mas um cristão tem o compromisso de ser ou uma boa pessoa, ou tentar, um compromisso inexistente em outros ambientes sociais. A comparação é ruim, para dizer o mínimo.
Se a Igreja é igual a qualquer outro ambiente social em termos de virtude, então para que serve a Igreja? Se não for melhor nisso, se pelo menos não tentar ser melhor nisso, então para nada a Igreja serve.
E notem: eu acho que as igrejas católicas, protestantes e espíritas têm um melhor ambiente que a maioria dos outros agrupamentos. De outras religiões eu não falo, porque eu não as conheço (e mesmo as igrejas católicas, protestantes e espíritas eu conheço pouco), mas imagino seres ambientes saudáveis, no sentido moral do termo, melhor que quase todos os circulos sociais. É verdade que na internet alguns católicos, protestantes e espíritas, graças a Deus não todos e nem a maioria, gostam de criar caso e arrumar brigas idiotas por motivos ridículos. Como os ateus também, aliás, ou os indiferentes. Mas quase todos os fieis simples, que trabalham para viver e não têm tempo para brigar na internet, se comportam de modo bastante civilizado, melhor que a maioria do resto da sociedade.
Só que notar isso não muda o fato que Pedro Sette Câmara argumentou mal e fez uma comparação errada, a partir de seus fundamentos. Apples and oranges, como dizem os americanos...
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Bom time, o do Corinthians no tempo da democracia corinthiana. Sócrates, Casagrande, Wladimir e Zenon eram ótimos jogadores. Faziam um descarado proselitismo ideológico, mas eu era adolescente e gostava do proselitismo ideológico deles. Hoje eu não gostaria, mas nunca pensaria em negar seu direito de manifestar sua ideológia, de usar suas condições de idolos para promover sua ideológia.
Claro, a democracia corinthiana tinha seus aliados e admiradores na imprensa. Um dos maiores, talvez o maior, foi Juca Kfouri. Novamente, eu discordo, mas reconheço o direito de Juca Kfouri usar sua posição de jornalista famoso para promover a ideologia que mais lhe agradar.
Eu não lembraria esse assunto aqui se não fosse um artigo em que Juca Kfouri ataca os jogadores que fazem proselitismo religioso. Kfouri não gosta de religião, e não quer ter que engolir religião quando tem que assistir a algum jogo. Certamente, muita gente não gostava do proselitismo ideológico da democracia corintiana. Eu não me lembro de Juca Kfouri ter escrito algo defedendo o "direito" dos conservadores, centristas e apolíticos, direito de não ter que engolir proselitismo político na hora de ver um simples jogo de bola - "direito" que não existe, ora essa! O torcedor que deixe de ver o jogo, se quiser. O atleta faz o seu show como achar melhor, o público tem o direito de não ir ao estádio ou de mudar o canal de televisão, se não gosta, ponto.
Eu não acredito que Juca Kfouri tenha a humildade de reconhecer que o proselitismo ideológico do Sócratés, antes, era tão irritante quanto o proselitismo religioso do Kaká, hoje.
O inspirador da democracia corinthiana, o sociologo, e diretor de futebol na época, Adilson Monteiro Alves, depois fez um acordo com Oreste Quercia, e Juca Kfouri rompeu com ele por esse motivo. Eu não acredito que Juca Kfouri romperia com Adilson Monteiro Alves se este tivesse feito um acordo com José Dirceu.
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Depois do Banho, quadro de Joaquín Sorolla.

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