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Sunday, February 07, 2010
A Ideologia, e o que os Brasileiros Fazem com Ela.
Eu estou lendo, no momento, sobre a República Velha. As pessoas que acreditam e acham bom o fim das ideologias deveriam ler, também. Na República Velha não havia ideologia entre os adversários: todos eram republicanos e nenhum questionava o sistema. Mesmo Ruy Barbosa não era contra o sistema em si, no máximo ele defendia algumas reformas que o fariam funcionar melhor, de forma mais honesta. O problema com as propostas de Ruy Barbosa era o mesmo problema das atuais propostas de reforma política: elas dependiam (e dependem, no caso das atuais propostas de reforma política) da aprovação de políticos que seriam prejudicados por elas. E esses políticos, bem, eles não queriam uma reforma que os prejudicassem. Mas é provável que com o tempo essas reformas acabassem se impondo pacificamente, se não fosse o Golpe de 1930 (a maioria dos os golpes da nossa história, com exceção dos de 1945, 1955 e 1964, foram erros graves – e o de 1964, se não foi um erro em si, já que o governo Goulart o tornou inevitável, acabou sendo prejudicado pela ambição de alguns chefes militares, que impuseram ao Brasil 20 anos de regime militar, o que não estava de jeito nenhum nos planos da maioria dos golpistas, que queriam um golpe como o de 1955, concluído com o afastamento do presidente João Café Filho, sem mudanças na estrutura política do Brasil – mas é melhor deixar esse assunto para outro artigo). Os oligarcas, como todos os tiranos, acabaram vitimas de seu próprio poder. Fazia parte do sistema vigente antes de 1930 que o Executivo Federal agisse como arbitro nas disputas internas dos oligarcas estaduais. Os oligarcas abusaram desse recurso, o que teve dois efeitos negativos: minou a legitimidade do regime, por um lado, e deu aos militares motivos para odiar as oligarquias civis, já que o executivo federal se impunha através de sua maior vantagem, o comando das forças armadas. Chegamos aqui ao Grande Problema da nossa história política, à Questão Militar, anterior ao Golpe de 1930, anterior à Proclamação da República: os militares não gostaram (e não gostam) de serem usados para resolver os problemas políticos dos oligarcas civis. E foi por isso que eles tentaram golpear a república civil em 1922, 1924, na Coluna Prestes, e finalmente em 1930. Não havia, da parte dos militares, incompatibilidade ideológica ao regime dos oligarcas civis. Tanto que entregaram o poder a um deles, Getúlio Vargas. Consolem-se, portanto, os que acham que o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, é um homem de sorte: sorte por sorte, a de Getúlio Vargas foi maior (mas isso não impediu o suicídio de Vargas, no final das contas... mas também isso é assunto para outro artigo). O que se trata aqui é a falta de ideologias em choque, antes de 1930: todos os políticos importantes eram da mesma ideologia, e mesmo Ruy Barbosa, que queria reformar o sistema, não teve adversários ideológicos: seus adversários eram homens que queriam continuar a abusar da estrutura do Estado brasileiro para permanecer no poder, não idealistas que divergiam intelectualmente de Ruy Barbosa. Ruy Barbosa tinha sido um liberal no Império, sim, um golpista em 1889, mas na república ele agia como um genuíno conservador, defendendo reformas dentro da lei. Inclusive, ele foi contra os "tenentes" e suas tentativas de depor os oligarcas pela força. Ele previa, e a história posterior do Brasil deu-lhe razão, que por esse caminho o Brasil sofreria por uma tirania pior que a dos oligarcas. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
O Brasil de hoje é tão diferente assim do Brasil anterior a 1930? É verdade que não há falta de ideologia no debate político, há excesso, de um só tipo de ideologia: todos são, de um jeito ou de outro, esquerdistas. Há moderados, que passam por conservadores, e radicais, mas todos são esquerdistas. Sendo todos esquerdistas, o esquerdismo acaba sendo a ideologia conservadora, ironicamente (já que os esquerdistas não irão contra um sistema esquerdista – ao menos, não por ideologia), e todos sendo da mesma ideologia, é como se nenhum tivesse ideologia. Algo semelhante aconteceu no século XIX: os republicanos, tendo se imposto aos políticos imperiais graças ao apoio do exercito, acabaram impondo o republicanismo a todos os que queriam participar da política, inclusive políticos que já atuavam no período monarquista, como Rodrigues Alves a Afonso Penna, e, sendo todos republicanos, ninguém tinha adversário ideológico – para isso, seria preciso que alguém importante não fosse republicano, e mais ainda, que fosse importante por não ser republicano, o que era impossível no antigo sistema, como hoje é impossível alguém ser importante na política por ser contra o esquerdismo. Eu não pretendo, é claro, que os políticos do PT, do PMDB ou do PSDB sejam iguais aos oligarcas da República Velha (e aos monarquistas que aderiram aos republicanos, depois), pois certamente são inferiores tanto moralmente quanto intelectualmente a estadistas como Prudente de Morais, Campos Salles, Rodrigues Alves e Afonso Penna. Prefiro acreditar que há algo no temperamento do brasileiro, que abomina os debates ideológicos e prefere se acomodar às ideologias momentaneamente dominantes do que combatê-las. Assim como políticos do Império se adaptaram ao republicanismo, os antigos membros do partido de sustentação do regime militar se sentem a vontade como aliados do PSDB ou do PT. Parece que, aqui no Brasil, a vitória ideológica é, no fundo, apenas uma ilusão.
Posted at 11:08 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, January 31, 2010
Eu não vejo muitas diferenças entre as ditaduras ditas "de esquerda" e "de direita". Talvez a maior, entre as poucas, é que numa ditadura dita "de direita" a maioria da esquerda sobrevive. * * * * * * * * * * * * * * * *
Uma pessoa que ganha mais com a política do que com seu próprio trabalho é uma pessoa que presta? Antes de responder, considere o seguinte: a maioria dos esquerdistas acham que a militância política é mais digna que um trabalho honesto. E a maioria da esquerda gostaria de manter o povo em "mobilização permanente" (fazendo manifestações e mais manifestações, às vezes violentas) ao invés de deixá-lo trabalhar. * * * * * * * * * * * * * * * *
Disse César Miranda: Toda prosa conta, descreve, argumenta é, enfim, serva das idéias ou dos acontecimentos. A prosa esta presa. Meu sonho é ver uma prosa tão livre a ponto de ser magnificamente elevada à inutilidade, isto é à categoria de arte. E, no entanto, Jesus disse ao Diabo: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. O que me faz pensar: somos o resultado da prosa de Deus? Se assim é, somos uma obra de arte, pois a prosa de Deus, se for de Deus, está livre de todos os acontecimentos deste mundo. Somos a obra de arte de Deus e, portanto, inuteis? (Claro, para Deus somos inúteis, sim. Senão, Deus não é Deus. Sim, talvez toda palavra que sai da boca de Deus seja a prosa dos sonhos de César Miranda, e talvez nós sejamos mesmo a obra de arte de Deus). * * * * * * * * * * * * * * * *
Disse Evandro Ferreira: A "mídia" é, por definição (ou estruturalmente, se quisermos), marcada por algo que eu chamaria de desproporcionalização dos fatos. Sim, e não apenas isso, mas muitas vezes, também, marcada pela criação dos fatos. O que seria algo até aceitável (talvez um pouco chato) se a "mídia" não fosse ideologa da política numa democracia, condição que faz da "mídia" uma instituição um tanto perigosa. Principalmente se considerarmos que, em nenhum país do mundo, as pessoas sabem lidar com a "mídia".
* * * * * * * * * * * * * * * * "Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: 'Estou relendo...' e nunca 'Estou lendo'..." "Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado (...)" "Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual." "Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira." E minha preferida: "Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer." Todas essas frases são de Italo Calvino, de seu ensaio Por Que Ler os Clássicos, frases citadas por Ivan Lessa. Preciso ler mais Ivan Lessa. * * * * * * * * * * * * * * * * Do (ótimo) blog do Mr. X: O problema do cinema brasileiro é que tem muito cineasta que acha que seu ofício é "resolver os problemas do mundo" (ou, vá lá, aliviar a consciência culpada), em vez de entreter ou emocionar o público por uma hora e meia.Sim, eu também já acreditei que o problema era esse. Na verdade, não é apenas esse, eu diria que não é nem mesmo principalmente esse. Muito pior do que isso é o espírito de patota do pessoal do cinema. Eles não são profissionais, são "da turma". Não são colegas de trabalho, são amigos. O produtor, o diretor, o roteirista (notem que muitas vezes os três são a mesma pessoa) são amigos dos atores, da equipe de apoio e, principalmente, das atrizes. Sinto pena, muita pena, de uma mocinha que nasce com talento para representar no Brasil e achar importante ser uma moça decente. Ela terá que escolher: ou deixa de ser decente ou deixa de ser atriz, ou deixa o Brasil. Os nossos cineastas não a escolherão por ser uma boa profissional, porque eles não querem uma boa profissional - de cinema, bem entendido, outros tipos de "profissionais" eles podem bem querer... (há exceções, mas não contam, pelo contrário, confirmam a regra: essas exceções são quase todas parentes próximas de pessoas do cinema ou da televisão, e portanto têm alguém que sabe das coisas e as protegem dos gaviões. Uma moça de uma família normal, que não trabalha no cinema nem na TV, essa precisa abrir as pernas se quiser uma chance num filme brasileiro). Então, eles, o pessoal do cinema, não divertem o público porque não querem, apenas, não. Eles também não sabem. Não sabem porque isso não é exigido deles, basta ser amigo de alguém. O cinema brasileiro é, essencialmente, uma empresa de amadores, que ninguém pensa em profissionalizar - o profissional pode constranger os nossos amigos... esse amadorismo parece que está entranhado na cultura do cinema brasileiro, e receio que durará enquanto o cinema durar como forma de expressão. Fosse apenas uma questão de engajamento político, e os filmes menos engajados não seriam tão ruins quantos os engajados. O nosso teatro tem o mesmo problema, uma predominância de amadores vaidosos que repelem os profissionais, têm mais trabalho indo atrás de subsídios do que preparando uma boa peça e acham que sua brincadeira entre amigos deve ser vista como uma grande contribuição para a cultura. Talvez tenhamos um dia um bom teatro, pois é uma forma de expressão que deve durar muito mais que o cinema, mas não antes de escolher ser melhor fazer uma boa peça que dizer ao nosso amigo deslumbrado que ele não tem talento, ou para nossa amiga gostosa que ela é boa para modelo mas não para atriz. E, se você disser isso, você perde o amigo e não transa com a amiga. Será que uma boa peça de teatro vale mais que isso? * * * * * * * * * * * * * * * *
Diz o Cláudio Avólio: Minha sobrinha, de 10 anos, que mora na Espanha, pediu - repito: p-e-d-i-u - à mãe para fazer um curso sobre Gaudi. Não sei quanto aos pais dela, mas se fosse minha filha eu me trancaria no banheiro, abriria o chuveiro para abafar o barulho e me acabaria em lágrimas de emoção.E eu, que fico muito satisfeito se minha filha de 18 anos passar na auto escola... * * * * * * * * * * * * * * * *
Natureza Morta com uma Caneca de Cerveja, de Fernand Léger.  Mais quadros de Fernand Léger aqui.
Posted at 12:03 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, January 24, 2010
Duas "Artes": Cinema e Futebol
LOS ANGELES - A atriz britânica Jean Simmons, estrela de cinema que encenou a Ofélia, no Hamlet de Laurience Olivier, cantou com Marlon Brando em "Guys and Dolls" e contracenou com Gregory Peck, Paul Newman e Kirk Douglas, morreu hoje aos 80 anos. Simmons que ganhou o Emmy por sua participação em minisséries na década de 80, morreu em sua casa, em Santa Mônica, segundo informou seu agente Judy Page, ao jornal Los Angeles Times. Ela tinha câncer de pulmão.http://www.estadao.com.br/noticias/geral,morre-atriz-britanica-jean-simmons,500444,0.htmEu me lembro de Jean com Marlon Brando em Guys ando Dolls, ela estava ótima, com Gregory Peck em Da Terra Nascem os Homens, ela estava ótima, e como Ofélia com Laurence Olivier, ela estava ótima. Ela sempre foi ótima. Ela era linda sem ser vulgar, e isso é raro. Descanse em paz, Jean. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Eu tenho visto algumas séries de TV, ultimamente. São bem feitas, sim, divertem, sim, mas, sei lá, falta nelas alguma coisa que os filmes da antiga Hollywood tinham, e as séries de hoje, por mais bem feitas, não. Na falta de palavra melhor, eu diria que falta inocência. A Jean Simmons não era, na vida real, uma moça inocente, mas nas telas ela se saia bem nesse papel. E não só ela, muitas outras atrizes, que podiam não ser bonitas e talentosas como Jean, mas conseguiam convencer o público até com bastante facilidade, até hoje, revendo os filmes antigos, dá realmente para acreditar nelas, em suas personagens... não, não é apenas porque a platéia era mais inocente do que hoje: as pessoas que trabalhavam também eram mais inocentes e acreditavam ser crível uma personagem feminina que fosse ao mesmo tempo casta e decente, mas também apaixonada, e ainda ter uma forte personalidade, firme e decidida, como Jean Simmons em Guys and Dolls. Hoje, não acreditamos que uma personagem assim é possível, e pior, os homens de Hollywood não acreditam que alguém acredite que uma personagem assim seja possível, e por isso essa personagem não é mais possível no cinema, ou na ficção. Será que vale mesmo a pena sermos tão cínicos assim? Perdemos muita coisa, em troca de uma visão amarga do mundo. Na minha opinião, uma troca muito besta. Cinema, e televisão, são "artes" de fofoqueiros: vemos para saber da vida dos outros, mesmo que esses outros não existam. Claro, pode ser divertido para uma pessoa inteligente saber da vida de pessoas inteligentes. Mas não, não é arte. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
O Vasco da Gama mandou embora um punhado de jogadores nota 3 ou 4 (com exceção do Alex Teixeira) e trouxe um punhado de jogadores nota 5 ou 6. Melhorou? Sim, eu diria que sim. Não acho que tenha um time favorito para grandes conquistas, mas tem um time que não dará vexames. O técnico Wagner Mancini é um homem sério, não é um Telê Santana mas também não é um Renato Gaucho. Ele deverá armar bem o time, e o Vasco deverá fazer ter um bom 2010, sem ser brilhante. O problema é que nenhum torcedor pode ficar satisfeito com isso. Ou seu time é a seleção do mundo ou não presta para nada. É o extremismo típico do Brasileiro, será uma característica nacional? Isso que acontece nos debates ideológicos e políticos, também ocorre no futebol, onde qualidades como frieza, objetividade, ponderação e paciência são virtudes raras. No futebol, bem, essa atitude é perdoável, futebol é lazer, é diversão, e não se deve levar a sério. Mas na política isso é um defeito muito grave. Bem, eu tento ser ponderado tanto no futebol quanto na política. Já pensei diferente, e agi diferente. Hoje, eu acho que melhor do que ter razão, no Brasil, é mostrar um exemplo de ponderação. Isso não quer dizer falta de opiniões firmes, de modo algum. Quer dizer não achar que o mundo precisa que você imponha suas opiniões, e respeite quem tenha opiniões diferentes. Deixemos as paixões para o futebol, e mesmo aí é melhor ser ponderado que apaixonado. E reconhecer que o Vasco da Gama está no bom caminho e merece nosso aplauso (porque o nosso apoio o time sempre mereceu, mesmo, ou melhor, principalmente quando caiu para a segunda divisão em 2008), mas ainda falta muito para ter um grande time. Agora, se não ganha do Flamengo, pelo menos, ah se não vou ficar muito p... da vida com o Vasco! * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
Eu escrevi a pequena nota acima sobre o Vasco antes da goleada de seis em cima do Botafogo, e é claro que estou feliz com a goleada. Mas acho que não há muito a mudar o que eu escrevi acima. O Vasco tem um time nota 6,5 (se o Dodô jogar sempre tão bem, nota 8), isso porque o Coutinho está se saindo melhor que o Alex Teixeira. Na média do futebol brasileiro atualmente, pode ganhar de qualquer time grande, como já podia no ano passado, mas hoje isso é mais evidente. Mesmo assim, o Vasco não é favorito em um jogo contra a maioria dos times grandes. Pelo menos, ainda não se credenciou para isso, precisa mostrar mais. Mas é claro que está no caminho, e é claro que estou feliz com o Vasco da Gama.
Posted at 11:57 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, January 17, 2010
Uma Análise Precoce, mas não Prematura
Esse será o último ano do governo do presidente Luis Inácio Lula da Silva. Não acontecerá nenhuma surpresa agradável. Então, rezemos para que não aconteça nenhuma surpresa desagradável. Mas podemos dizer, com razoável convicção, que nada de bom pode ser acrescentado ao atual governo. Portanto, se não podemos ainda fazer o balanço de todo o governo de Luis Inácio Lula da Silva, podemos, ao menos, considerar seus pontos positivos, o que ele pode ter feito, ou representado, de bom para o Brasil. A meu ver, o melhor legado do governo de Luis Inácio Lula da Silva para a atual e as futuras gerações é a segurança econômica. De fato, o senhor Luis Inácio Lula da Silva governou de acordo com o que chamam de mercado (1), teve uma política econômica responsável, muito mais do que esperavam dele, ao menos, e com isso os capitalistas nacionais e estrangeiros sabem que poderão investir no Brasil por décadas, quiçá para sempre: a verdade é que nenhum político que chegar a presidência do Brasil deixará de governar de acordo com o “mercado”. E todos os investidores sabem disso, felizmente. Isso é um mérito, afinal de contas, que devemos reconhecer. Convém lembrar que em 2002, com a então cada vez mais provável hipótese de um presidente de esquerda radical ser eleito, o mercado reagiu com apreensão, apreensão que se refletiu na alta do dólar, que chegou a 3,62 reais, na sexta feira anterior às eleições daquele ano. Podemos dizer com certeza que isso não mais acontecerá, porque o governo de Luis Inácio Lula da Silva tranqüilizou o mercado e governou de acordo com o grande capital. A partir do governo Luis Inácio Lula da Silva, portanto, o mercado se sentirá seguro com qualquer possível presidente: todos serão responsáveis, financeiramente, ao menos, e daqui para frente todo governo, mesmo os governos petistas, terão o seu Meireles no Banco Central, para tranqüilidade do “mercado”. E, se é verdade que qualquer adversário de Luis Inácio Lula da Silva, nas eleições de 2002 e 2006, se eleito, também governaria de acordo com o Grande Capital, também é verdade que esses candidatos não teriam, se eleitos, conseguido que os petistas reconhecessem a necessidade de assim governar, pelo menos dentro do atual sistema, e o PT continuaria a ser um espantalho capaz de afugentar investidores e um fator de instabilidade da nossa moeda, para grande prejuízo de muitas pessoas que trabalham honestamente no Brasil. Graças ao governo de Luis Inácio Lula da Silva, portanto, a estabilidade econômica é um compromisso de todos os partidos importantes, e por partido importante se quer dizer todo partido que tem condições de eleger um presidente da república. Isso é, eu creio, o maior mérito do atual governo, e não convém subestimar ou minimizar esse mérito, é um mérito importante. A confiança do “mercado” no Brasil, não importa qual seja seu presidente, pode significar a sobrevivência de muitas empresas e a conquista ou manutenção de um emprego decente para centenas de milhares de pessoas, talvez milhões. Eu penso que, ao se analisar o governo Lula e seu significado para o Brasil, no futuro, esse aspecto positivo e importante terá que ser considerado. O problema, que impede de considerar que o atual governo foi mais positivo que negativo para o Brasil, é que há muito mais que o aspecto financeiro a se considerar. Temos que analisar, também, o quanto o atual governo contribuiu para o respeito e a solidez das instituições democráticas, para os direitos do cidadão, principalmente o direito a propriedade, sua influencia na cultura e nos hábitos da população, que todo governo, ainda que acidentalmente, tem sobre o povo – bem ou mal, um presidente é um exemplo para seu povo, e eu não chamaria o senhor Luis Inácio Lula da Silva de um bom exemplo. Na verdade, eu tenho que admitir com tristeza, e imagino que as pessoas honestas de todos os partidos, ou sem qualquer partido, no Brasil de hoje, partilham dessa tristeza, que políticos como José Sarney, Fernando Collor ou Jader Barbalho, que não são conhecidos por uma reputação acima de qualquer suspeita, para usar uma expressão delicada, poderão contar com uma menor rejeição moral da sociedade, o que não deve contribuir para aumentar o grau de honestidade na gestão dos recursos públicos. Por culpa do governo do senhor Luis Inácio Lula da Silva, as pessoas que exigem honestidade dos homens públicos estão desacreditadas perante a maioria da sociedade. Se considera ter sido impossível para o senhor Luis Inácio Lula da Silva governar sem corrupção, e em conseqüência muitas pessoas acham impossível para qualquer presidente governar sem um acordo com políticos corruptos, muito vantajoso para estes, à custa do tesouro público. É um duplo erro, na verdade, se o governo de Luis Inácio Lula da Silva fosse mais respeitador das instituições democráticas, teria sido possível fazer tudo o que se fez de bom, e isso vale para qualquer governo possível no Brasil de hoje. Também temos que considerar as oportunidades perdidas, e por tais oportunidades se quer dizer o bem que o atual governo poderia fazer e não fez, reformas há muito necessárias, que são a reforma trabalhista, a administrativa, a tributária, a previdenciária, e outras, além de mais privatizações, que fariam muito bem aos brasileiros, principalmente num contexto internacional favorável. Considere o leitor que, graças à influencia cultural do atual governo, nenhum político ousa falar em privatização da PETROBRAS, por exemplo, a qual, provavelmente, continuará a existir como a conhecemos hoje por pelo menos mais uma geração. O envolvimento com grupos antidemocráticos, como o MST, internamente, e Chávez, as FARCs e os irmãos Castros, externamente, também tende a ser muito ruim para os brasileiros, no futuro. Assim, podemos dizer, antes do governo Luis Inácio Lula da Silva terminar, que uma coisa boa, e importante, a garantia de responsabilidade financeira com todos os presidentes possíveis, foi conquistada pelo atual governo, mas que há muitas coisas ruins a se considerar, embora não possamos saber quais serão as conseqüências delas no futuro. Na verdade, também é preciso admitir parte de culpa da oposição e mesmo da sociedade, que não foi capaz de se organizar para se opor eficazmente ao governo de Luis Inácio Lula da Silva, ou sequer de ter o desejo de se opor aos aspectos mais negativos de seu governo, que seriam menores e menos influentes se um grande partido de oposição, liberal e sério, existisse e permanecesse atento e vigilante. Não teríamos apenas um país melhor, se tivéssemos um grande e decente partido liberal. Teríamos, também, uma esquerda melhor e, do mesmo modo, o governo de Luis Inácio Lula da Silva seria um governo melhor. * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
1 - Na verdade, o “mercado”, tecnicamente, reúne todas as atividades econômicas do Brasil, ou seja, o povo todo. O que passa por mercado na mídia é apenas uma pequena parte do mercado total, uma parte do setor financeiro.
Posted at 08:52 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, January 10, 2010
Mulher com Guitarra, de Georges Braque
 Mais quadros de Georges Braque aqui.
Posted at 11:40 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, January 03, 2010
Dois Defeitos da Esquerda Criam Problemas no Brasil de Hoje
Antes, o começo do artigo de Ruy Fabiano, publicado no blog de Ricardo Noblat, no dia dois de Janeiro: O pedido de demissão conjunta do ministro da Defesa, Nélson Jobim, e dos comandantes militares, deu-se na terça-feira da semana do natal, em reação ao decreto que cria o Programa Nacional de Direitos Humanos, que prevê, entre outras coisas, a investigação dos atos de tortura cometidos por agentes do Estado durante a ditadura e abre espaço para revisão da Lei de Anistia.Lula prometeu rever o ato. Mas, como não é a única iniciativa em curso dentro do seu governo com a mesma finalidade – a revisão da lei de Anistia -, o mal-estar sazonal que provoca na área militar está longe de ter sido superado.É verdade. Parece que se tornou ponto de honra para esquerdistas brasileiros, pelo menos os mais velhos deles, rever a Lei da Anistia para punir torturadores e manter terroristas anistiados. Notem o leitor que nunca se diz o que de bom pode acontecer se a Lei da Anistía for mudada do jeito que os esquerdistas querem – talvez porque, para quase toda população, não pode ter nenhuma boa consequencia na prática. Exceto fazer chantagem moral sobre o exercito (o que seria um absurdo para qualquer pessoa de bom senso, pois todos sabem que o exercito não era formado apenas por torturadores no tempo do regime militar, e hoje em dia muito menos - mas aí é preciso lembrar que a maioria do eleitorado não é formada por pessoas de bom senso, nem aqui nem em nenhum país do mundo) e saciar a sede de vingança de alguns medalhões esquerdistas, não há necessidade nenhuma de rever a Lei da Anistia. Então, surge a pergunta: vale a pena arriscar colocar os militares contra o atual regime, que bem ou mal é democrático, para que os esquerdistas possam se vingar de algo que aconteceu a mais de 30 anos e não tem chance nenhuma de voltar a acontecer se a esquerda for realmente uma política democrática? É uma pergunta meramente retórica, pois a única resposta é "não, não vale". Em minha opinião, a Lei da Anistia continuará como está, e os esquerdistas brasileiros, por solidariedade a alguns velhos militantes que cometeram crime de terrorismo contra o povo brasileiro, seguirão tentando rever a Lei da Anistia por muitos anos ainda. Essa luta servirá para manter o exercito na defensiva enquanto os esquerdistas brasileiros continuarão a usar a impunidade dos torturadores para sua chantagem moral contra toda a sociedade por muitos anos ainda, até que esse assunto finalmente seja esquecido. É preciso admitir que a minha opinião sobre esse assunto não é muito animadora para pessoas que gostariam que o debate político e ideológico no Brasil não fosse tão chato. Enfim, preciso explicar o título desse artigo, e dizer afinal quais são os dois defeitos da esquerda que atrapalham tanto a política no Brasil. A esquerda tem muitos defeitos, mas no momento é mais necessário falar de dois entre eles, pois são os mais perigosos para o atual momento democrático pelo qual passamos (o perigo dos dois defeitos de que falo é justamente esse fazer da democracia um "momento", um intervalo democrático entre duas ditaduras, como foi o igualmente imperfeito regime democrático que durou de 1946 a 1964). Os dois defeitos são um complexo de inferioridade moral de esquerdistas moderados diante dos radicais e a incapacidade de preparar seu próprio futuro e o futuro da sociedade da qual faz parte. Já foi dito que os social-democratas têm uma espécie de superego bolchevique. Talvez seja um exagero. Mas o fato é que, pelos radicais de seu lado, os esquerdistas moderados têm um grande respeito, que não noto na direita. Sempre que se critica um radical que propõe loucuras que só podem servir para arruinar a sociedade, alguém diz: "Fulano pelo menos é valente e sincero". Sobre os antigos terroristas, mesmo quem considera o terrorismo sempre errado acrescenta a mesma ressalva: "eles pelo menos tiveram coragem de enfrentar os militares de armas na mão, não se esconderam de medo como tantos outros que esperaram pela redemocratização..." Essa "coragem", na verdade, não é uma virtude. Coragem para cometer crimes nunca pode ser uma virtude. O que diríamos de um desempregado que admira um bandido (e infelizmente há muitos) porque em vez de esperar aparecer um emprego o bandido prefere assaltar e matar? Há um problema em comparar bandidos e terroristas políticos, alguns dirão, e o problema é que um terrorista pode atentar contra as pessoas que não permitem que ele faça política normalmente, enquanto que um bandido assalta e mata que não tem culpa por ele não ter emprego normal. Sim, isso talvez seja verdade em outros países, mas não se pode dizer isso dos terroristas brasileiros que agiram contra o regime militar, pelo simples fato que eles não cometeram nenhum atentado contra uma personalidade importante do regime militar, e portanto eles não mataram ninguém que os impedissem de fazer política normalmente, como em um país democrático – o que talvez possa ser explicado pelo fato dos terroristas que combateram o regime militar nunca tiveram a intenção de fazer política normalmente, em um regime democrático. O que, por sua vez, provoca arrepios em uma pessoa que sabe que, bem ou mal, a esquerda é importante na política brasileira: então, os esquerdistas não violam as regras da democracia por falta de coragem? Com coragem suficiente seriam iguais a Lamarca, Marighela, Che Guevara? Espero, sinceramente, que a resposta a essa pergunta seja negativa. O outro defeito da esquerda é a incapacidade de bem planejar o futuro. De fato, os esquerdistas no poder agem como se fossem ficar no poder para sempre e para sempre terão boas condições de administrar a economia. O que lhes dará para sempre apoio da maioria das pessoas, e que o Brasil sempre será deles e eles nunca irão precisar das forças armadas, para nada. Talvez seja inexato afirmar que assim é por conta de seu natural autoritarismo, sua incapacidade de aceitar alternância de poder. Há uma hipótese que julgo mais perto da verdade: o comportamento esquerdista em relação às Forças Armadas, e outras instituições do Estado, é uma conseqüência da tradicional incapacidade esquerdista de bem planejar o futuro. De fato, os esquerdistas agem como se nem eles nem o Brasil um dia fossem precisar de forças armadas respeitadas no exterior. Bem, se querem que o Brasil seja uma liderança diplomática mundial ou mesmo regional (e não há duvida que o atual presidente, Luis Inácio Lula da Silva, quer isso), então é preciso que as forças armadas brasileiras sejam respeitadas no exterior, e as forças armadas precisam ser respeitadas no Brasil para serem respeitadas no exterior. Se querem manter a integridade territorial do Brasil, é preciso que as forças armadas sejam respeitadas, internamente e externamente. Se querem resolver grandes problemas sociais, alguns deles, como o crime, em algumas regiões, é necessário a ajuda das forças armadas, e para isso é preciso que as forças armadas sejam respeitadas internamente. Se querem que o Estado funcione os esquerdistas precisam formar quadros de servidores públicos, competentes e comprometidos em bem servir ao Brasil, não há nada melhor até agora que as instituições controladas por militares, portanto precisam que as forças armadas sejam respeitadas internamente. Se querem manter um sistema no qual possam chegar ao poder pelo voto, e até agora temos muitos motivos para acreditar que os esquerdistas querem isso, ao menos a maioria, é preciso que as forças armadas respeitem o atual regime e, no mínimo, é muito difícil ganhar para o atual regime o respeito das forças armadas se elas mesmas não são respeitadas no atual regime. E, com "provocações", para usar um termo suave, ainda que talvez inexato, como as tentativas de rever a Lei da Anistia contra um dos lados e manter o outro intocado, os esquerdistas contribuem para que as forças armadas sejam desrespeitadas internamente, o que faz com que elas sejam desprezadas externamente, e também faz com que as forças armadas tenham cada vez menos respeito pelo atual regime, o que, a longo prazo, é muito ruim não apenas para a esquerda como para todo o Brasil. Uma esquerda preocupada em bem planejar seu futuro não iria querer que as forças armadas brasileiras sejam desprezadas e muito menos inimigas do atual regime, mas isso é o que se pode conseguir com provocações como a revisão que querem fazer da Lei da Anistia.
Posted at 11:31 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, December 27, 2009
A Sorte dos Presidentes - e a do Povo
O atual presidente, Luis Inácio Lula da Silva, é tido como um homem de sorte. E é. Mas não é um caso excepcional. Todos os presidentes do atual regime político contaram com uma boa dose de sorte para serem precisamente isso, presidentes. José Sarney e Itamar Franco são casos óbvios, e muito citados, de sorte. Fernando Collor foi promovido pela mídia do sul do Brasil (o "Caçador de Marajás", como a VEJA o chamava...), que queria usá-lo contra Sarney, mas acabou ficando maior do que esperavam e se lançou como presidente. Talvez por esse motivo a revista VEJA tenha sido tão dura contra ele, depois (não que Collor não merecesse).
E Fernando Henrique Cardoso, foi feito ministro da fazenda por Itamar Franco, sem mérito, sem currículo, sem realizações, com exceção, talvez, de alguns trabalhos acadêmicos. Mas, como tinha prestígio da mídia e na academia, sua nomeação foi tida como o maior mérito de Itamar Franco. Foi mesmo mérito de Itamar Franco, que insistiu muito para Fernando Henrique Cardoso assumir o ministério da fazenda.
Fernando Henrique Cardoso teve seu mérito na criação do Plano Real, que finalmente livrou o Brasil da hiperinflação, mas não há duvida que para ser eleito presidente Fernando Henrique Cardoso contou com uma boa dose de sorte, inclusive contando com a campanha incompetente de Luis Inácio Lula da Silva, seu único adversário com chances. Portanto, como se vê, todos os presidentes que governaram no atual regime tiveram uma grande dose de sorte para chegarem à presidência. É injusto, portanto, criticar o atual presidente por ele ter sorte, ou lamentar este fato. A sorte, afinal, não é, ou não foi, apenas dele. Talvez no caso de Luis Inácio Lula da Silva a sorte seja maior do que para a maioria dos outros (mas não todos, pois acho que dos que chegaram à presidência José Sarney foi o que teve mais ajuda da sorte), mas isso está longe de ser excepcional. Mas, a sorte de Luis Inácio Lula da Silva tem sido um grande azar para o povo em geral? Sim, tem, mas nisso também o atual governo não é o pior, o mais azarado (para o povo em geral), pois me lembro do que foi o governo de José Sarney, e creio que foi o pior da história, o de maior inflação, combinado com um baixo desenvolvimento. Portanto, não creio que seja o caso de se espantar ou lamentar a sorte de Luis Inácio Lula da Silva, como tantos de seus adversários fazem. A sorte, afinal, faz parte do jogo da política, gostemos disso ou não. A sorte, na verdade, é um dos fatores que impedem as repúblicas de serem, na prática, democráticas, pois a sorte não pode ser controlada pela vontade popular, a não ser que acreditemos em pensamento positivo, o que não explica porque a sorte acaba.
Porque a sorte tem essa característica: ela acaba. José Sarney, Itamar Franco, Fernando Collor, e Fernando Henrique Cardoso, uma vez sem sorte, sofreram uma grande queda de poder político, depois de terem sido presidentes do Brasil. Há o estranho caso de José Sarney, o que conservou mais poder e influencia depois de ter sido presidente. Estranhamente, porque José Sarney é sem dúvida o que mais mereceria o ostracismo. Fernando Collor ainda pode ser senador por muitos anos, e talvez chegue a ser tão poderoso quanto José Sarney hoje, mas Itamar Franco nem é mais presença na política, e Fernando Henrique Cardoso mantém sua influência dentro de seu partido, o PSDB, apenas isso. Todos tiveram sorte, e todos perderam a sorte. Seja esse, pois, um consolo para os antilulistas: ainda veremos Luis Inácio Lula da Silva sem sua proverbial sorte, e veremos aonde ele vai por seus próprios méritos.
Minha opinião pessoal é que depois da presidência Luis Inácio Lula da Silva irá preparar a sua volta. Se não for bem sucedido nisso, irá se dedicar a viajar pelo mundo, apoiando causas politicamente corretas, uma espécie de Jimmy Carter brasileiro. E terá muita influência no PT, também, um partido que, sem a liderança de Luis Inácio Lula da Silva, tem tudo para se dividir em várias facções. Certamente, será muito difícil um a vota do PT ao poder, se não puder contar com Luis Inácio Lula da Silva como candidato. Tivesse Luis Inácio Lula da Silva respeitado mais as instituições e sido menos solicito com ditadores ou candidatos a ditadores pelo terceiro mundo, e eu não lamentaria a influência que ele terá sobre o PT, um grande partido, afinal, que terá um importante lugar na política brasileira por muitos anos depois de deixar o poder, com a saída de Luis Inácio Lula da Silva da presidência. Nas atuais circunstâncias, e não vejo como possam mudar as atuais circunstâncias, a maior conquista da política brasileira seria fazer o PT aceitar definitivamente a democracia, o que inclui respeitar o direito dos adversários e se afastar de ditadores internacionais. Com essa conquista, a democracia se consolidaria como o regime político definitivo do Brasil e seria possível reformar o atual sistema, devagar, sim, mas de forma segura, como costuma ser nas democracias maduras, depois de vários debates. Essa é a melhor maneira de se fazer política digna de grandes estadistas, pensando nas futuras gerações: manter o atual sistema, que não é tão ruim, considerando os que já tivemos, e reformando-o de forma devagar, mas segura. Esse espírito, de mudanças seguras e precedidas de longos debates, em o máximo todos os argumentos são analisados e todos os fatos são considerados, é o verdadeiro espírito do conservadorismo, que muita falta fez ao Brasil em datas cruciais da nossa história, nos anos de 1889, 1930 e 1964. Apesar dos defeitos, que são muitos, o atual sistema, em que um homem de sorte pode chegar ao poder e usá-lo muito mal, é um sistema melhor do que a alternativa, que é um regime golpista em que um bando de aventureiros armados impõe a toda população um projeto de engenharia política e social, que não teria chance nenhuma de ser aprovado por instituições legitimas.
Posted at 11:58 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, December 20, 2009
Do ponto de vista teológico, Kumpf era um representante daquele conservatismo mediador com laivos críticos-liberais ao qual já me referi. Na sua mocidade, segundo nos contava no decorrer de seus peripatéticos repentes, tinha sido um estudante entusiasmadíssimo da poesia e da filosofia alemãs. Gabava-se de ter sabido de cor todas as obras “mais importantes” de Goethe e Schiller. Em seguida, porém, acometera-o algo que tinha nexo com o despertar religioso de meados do século passado, e a Mensagem Paulina do pecado e da justificação o havia afastado do humanismo estético. Só quem nascer para teólogo poderá apreciar devidamente esse gênero de destinos espirituais e de caminhos a Dasmaco. Kumpf chegara a convicção de que nosso próprio modo de pensar estava carcomido e necessitava de justificação, e seu liberalismo fundava-se precisamente nessa opinião, uma vez que o induzia a ver no dogmatismo a forma intelectual do farisaísmo. Aproximara-se, pois, da crítica ao dogma por um caminho inteiramente oposto ao de Descartes, que, pelo contrário, considerava a certeza da consciência, do cogitare, mais legítima do que qualquer autoridade eclesiástica. Eis a diferença entre as liberalizações teológica e filosófica. Kumpf realizava a sua com alegria e na sã confiança em Deus. Perante nós, o auditório, reproduzia-a em “boa língua tudesca”. Não somente era anti-farisaico e antidogmático, mas também antimetafísico, inteiramente orientado para a ética e a teoria do conhecimento, um arauto ideal da personalidade alicerçada na moral, veementemente avesso à dissociação pietista de mundo e religião. Professava uma religiosidade secular e não rejeitava sadios prazeres; defendia a cultura, sobretudo a alemã, pois a cada instante revelava um inabalável nacionalismo de cunho luterano, e o pior opróbrio que se podia pespegar a uma pessoa seria a afirmação de tratar-se de um “leviano latino”, o que significaria que o pobre homem pensava ou doutrinava como um estrangeiro. Furioso, com o rosto afogueado, acrescentaria então às vezes: “Que o Diabo cague em cima dele! Amém!” E, novamente, o palavrão desenfreava enormes salvas de palmas.
O liberalismo de Kumpf, que não tinha sua origem na dúvida humanística acerca do dogma e sim na dúvida religiosa quanto à confiabilidade do nosso pensamento, não apenas o impedia de abraçar uma fé sólida na Revelação, como também estabelecia entre ele e o Diabo relações bastante estreitas, embora, obviamente, nada amistosas. Não posso nem quero investigar até que ponto o professor acreditava na existência real do Adversário, mas tenho para mim que onde quer que haja Teologia – e sobretudo uma teologia ligada a um vulto tão enérgico como Ehrenfried Kumpf – o Diabo também deve entrar no quadro, preservando sua autenticidade complementar à de Deus. Seria fácil dizer que teólogos reputam essa figura apenas como um “símbolo”. A meu ver, a Teologia em si não pode ser moderna, o que talvez seja uma das grandes qualidades dela. E no que toca ao simbolismo, não entendo por que se deva considerar o Inferno mais simbólico que o Céu. O povo certamente nunca fez isso. Sempre sentiu maior intimidade com a imagem brutal, obscenamente humorística, do Diabo do que com a Majestade Suprema, e Kumpf, à sua maneira, era um homem do povo. Quando se referia a “Belzebu e sua espelunca”, como gostava de fazer, servindo-se dessa denominação levemente burlesca, mas muito mais convincente do que a usual palavra “inferno”, absolutamente não se tinha a impressão de ele empregar um linguajar simbólico. Muito ao contrário, conferia-se a suas palavras o sentido de “pura verdade tudesca, sem cautelas nem rodeios”, e o mesmo acontecia com relação ao próprio Adversário. Eu já disse que Kumpf como erudito, como homem de ciências, fazia concessões ao racionalismo crítico quanto à crença na Bíblia, e com um tom de probidade intelectual “abandonava” pelo menos ocasionalmente algumas posições. Mas, no fundo, via como o Pai da Mentira, o Espírito Maligno exercia sua atividade justamente na razão, e raras vezes tratava disso, sem acrescentar a frase: Si Diabolus non esset mendax et homicida! Só a contragosto, pronunciava o verdadeiro nome do Gênio do Mal; geralmente o circunscrevia ou corrompia ao modo povo, chamando-o de Diacho, Decho ou Dianho. Mas, nesse jeito meio temeroso meio gracejador, de esquivança e alteração, havia algo de rancoroso reconhecimento da realidade do Inimigo. De resto, dispunha Kumpf de boa quantidade de rebuscadas e saborosas designações do mesmo, tais como Cão-tinhoso, Pedro-botelho, Mestre Capiroto ou Senhor Dicis-et-non-facis. Expressões que de modo igualmente jocoso davam a conhecer a relação intensamente pessoal, de forte rancor, que Kumpf mantinha com o opositor de Deus. (Doutor Faustus, Thomas Mann, páginas 128-130).
Amigos,
Esse Kumpf, vocês podem ver, se vocês lerem o trecho acima e se vocês conhecem Thomas Mann, esse Kumpf é talvez o mais diferente possível de Mann que se pode imaginar.
Esse é um dom de grandes escritores: dar a personagens de ideologias totalmente diferentes das suas a credibilidade necessária para o leitor considerá-los pessoas reais. E, até mesmo, nos fazer considerar sentimentos e pensamentos opostos aos seus bem elaborados e até mesmo profundos. Talvez Dostoievsky tivesse sido, entre os grandes escritores, o único capaz de competir com Mann na capacidade de exibir um amplo panorama cultural, tratando todas as ideologias com igual equidade e profundidade, mas Dostoievsky não tinha a cultura de Mann, e por isso Dostoievsky permanece para sempre muito profundo, mas limitado, quanto a este ponto em especial, a exposição do debate ideológico.
É de se notar, ainda, que o Diabo que depois, muitas páginas depois (Doutor Fausto é um livro grande, muito grande) tenta Adrian Leverkühn é uma versão cínica de Kumpf. Assim como o Nazismo é uma versão cínica da cultura, do romantismo e do patriotismo alemães. Cinismo nunca é bom. No máximo, às vezes, é inócuo.
Posted at 10:06 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, December 13, 2009
Posted at 01:25 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, December 06, 2009
Não ser mais jovem não é motivo de tristeza. Mas ficar triste por isso é. * * * * * * * * * * * * * * * * O presidente mais popular da história do Brasil não tem nenhuma aspiração mais profunda do que ficar num bar se divertindo com seus amigos. * * * * * * * * * * * * * * * *
Sexo é um ato deprimente, sujo, com pouco ou nenhum prazer, na maioria das vezes. Mas as poucas vezes em que o sexo dá prazer e, principalmente, as lembranças dessas poucas vezes compensam todos os incovenientes do ato sexual. * * * * * * * * * * * * * * * *
Sexo é um ato deprimente, sujo, com pouco ou nenhum prazer, na maioria das vezes. As aventuras, de qualquer tipo, fracassam na maioria das vezes. Existe prova maior da estupidez humana que a combinação de sexo e aventura ser um dos maiores ideais vida da humanidade (e isso inclui a maioria dos moralistas)? * * * * * * * * * * * * * * * *
Os homens têm vantagens sobre as mulheres, e as mulheres têm vantagem sobre os homens. Eu creio que a maior vantagem das mulheres sobre os homens é que para elas é mais difícil aceitar a combinação de sexo e aventura. * * * * * * * * * * * * * * * *
É incrível como a política ficou mediocre depois que o sexo passou a ser um tema político. * * * * * * * * * * * * * * * *
É uma opinião aceitável, mesmo que eu não concorde, achar cinema um tipo de arte, como a literatura ou a pintura. Mas então, quem é o artista? Achar o diretor o artista do cinema é como achar um engenheiro o artista da arquiterura. * * * * * * * * * * * * * * * * Acreditar que a política externa do Brasil nada tem a ver com o Foro de São Paulo é como acreditar que a ação da policia federal contra Murad nada teve a ver com o fato de Roseana Sarney ameaçar tirar José Serra do segundo turno, em 2002. * * * * * * * * * * * * * * * *
Do Claudio Avólio: Dois blogues conceituados no universo direitista (sorry, no Jabá) afirmaram mais ou menos que "educação não é a solução."Espero que eles tenham apenas confundido os termos "educação" e "escolaridade". Sim, porque eu até consigo imaginar sociedades de merda (Olha nóis aí, gente!) com a população tendo algum nível de escolaridade, mas não conheço uma sociedade minimamente evoluída onde sua população não é educada no sentido estrito do termo.Na verdade, eu acho que a confusão é entre "educação" e "política educacional" - a primeira é muito mais profunda que simplesmente colocar criança na escola e escolher disciplinas relevantes e um bom conteúdo. E inclui também o que as crianças aprendem em casa, com seus pais, algo que o Estado não pode e nem deve tentar melhorar. A esperança é que as pessoas realmente educadas se casem, tenham filhos e os eduquem tão bem quanto elas mesma foram educadas, e que mais pessoas sigam esse exemplo, até que os realmente educados sejam maioria. É difícil dar certo, eu sei. Alguém tem uma idéia melhor? * * * * * * * * * * * * * * * *
Do Pedro Sette Câmara: Eu mesmo admiro T. S. Eliot, mas acho que nunca vou amar sua poesia como amo a de W. B. Yeats.Eu diria que essa é a diferença entre poesia e prosa: a primeira deve ser sempre amada e não, necessariamente, admirada, a segunda não necessariamente amada, mas sempre admirada. Essa diferença era mais óbvia no século XIX do que hoje. * * * * * * * * * * * * * * * *
Ainda do Pedro Sette Câmara: Ok. Eu falava de TV, não de cinema. É que a série Aline tem pelo menos uma mentira existencial profunda, gritante, espalhafatosa. Meninas como Aline, essa Angelina Jolie da Liberdade, jamais se sentiriam atraídas por aqueles patetas que são seus "namorados". Não sentiriam atração nem por um, nem por dois; e talvez nem mesmo meninas mais parecidas com um Cheddar McMelt chegassem a sentir atração por aqueles dois emasculados McChickens. Não acontece. Nunca aconteceu. Jamais. Eu garanto. Aqueles dois são causa de lesbianismo; não se pode culpar a mulher por querer virilidade, nem por encontrar mais virilidade numa amiga do que em dois boçais subjugados. Ocorre-me que se fala só de sexo, de atração física, e não de amor. E se Aline tiver amor pelos "dois boçais subjugados"? É difícil de acreditar, mas seria mais crível (e também mais honesto) que se fosse só uma questão de atração física, pois o amor é muito mais difícil de entender e explicar. Não havia sexo entre Lou Salomé, Nietzsche e Paul Rée, mas havia amor. Um dos homens enlouqueceu, o outro se matou, mas a mulher, que tinha amava os dois, sobreviveu até a velhice. É trágico, mas crível, pois o amor é uma espécie de loucura e de loucos tudo se acredita. Mas a tragédia, inconsciente, de Aline é ainda maior: é a tragédia de uma parte da sociedade, a mais intelectualizada, que é incapaz de imaginar que se façam loucuras por amor, e é incapaz de conceber o amor, com ou sem sexo. * * * * * * * * * * * * * * * *
Disse Paulo Francis (não com essas palavras, mas o sentido é o mesmo): Ser adulto é ir por um caminho que você sabe muito bem que siginifica sua destruição no final, mas mesmo assim você vai, por saber muito bem, também, que não há alternativa melhor. Não é a toa que tanta gente não quer amadurecer.* * * * * * * * * * * * * * * *
Maria Antônia e O Tapeceiro Estofador, do Dennis. É maravilhoso como, nos contos do Dennis, uma frase pode mudar tudo, e tudo permanece belo.
* * * * * * * * * * * * * * * *
Alias, vale seguir o Dennis no Twitter, se mais não fosse para rir do Lula. Sempre é melhor rir que chorar.
* * * * * * * * * * * * * * * *
Disse Madame de Staël:
"Na vida você tem de escolher entre tédio e sofrimento."No Brasil, conseguimos combinar os dois.
Posted at 11:26 pm by Flamarion Daia Júnior
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