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Sunday, December 20, 2009
Do ponto de vista teológico, Kumpf era um representante daquele conservatismo mediador com laivos críticos-liberais ao qual já me referi. Na sua mocidade, segundo nos contava no decorrer de seus peripatéticos repentes, tinha sido um estudante entusiasmadíssimo da poesia e da filosofia alemãs. Gabava-se de ter sabido de cor todas as obras “mais importantes” de Goethe e Schiller. Em seguida, porém, acometera-o algo que tinha nexo com o despertar religioso de meados do século passado, e a Mensagem Paulina do pecado e da justificação o havia afastado do humanismo estético. Só quem nascer para teólogo poderá apreciar devidamente esse gênero de destinos espirituais e de caminhos a Dasmaco. Kumpf chegara a convicção de que nosso próprio modo de pensar estava carcomido e necessitava de justificação, e seu liberalismo fundava-se precisamente nessa opinião, uma vez que o induzia a ver no dogmatismo a forma intelectual do farisaísmo. Aproximara-se, pois, da crítica ao dogma por um caminho inteiramente oposto ao de Descartes, que, pelo contrário, considerava a certeza da consciência, do cogitare, mais legítima do que qualquer autoridade eclesiástica. Eis a diferença entre as liberalizações teológica e filosófica. Kumpf realizava a sua com alegria e na sã confiança em Deus. Perante nós, o auditório, reproduzia-a em “boa língua tudesca”. Não somente era anti-farisaico e antidogmático, mas também antimetafísico, inteiramente orientado para a ética e a teoria do conhecimento, um arauto ideal da personalidade alicerçada na moral, veementemente avesso à dissociação pietista de mundo e religião. Professava uma religiosidade secular e não rejeitava sadios prazeres; defendia a cultura, sobretudo a alemã, pois a cada instante revelava um inabalável nacionalismo de cunho luterano, e o pior opróbrio que se podia pespegar a uma pessoa seria a afirmação de tratar-se de um “leviano latino”, o que significaria que o pobre homem pensava ou doutrinava como um estrangeiro. Furioso, com o rosto afogueado, acrescentaria então às vezes: “Que o Diabo cague em cima dele! Amém!” E, novamente, o palavrão desenfreava enormes salvas de palmas.
O liberalismo de Kumpf, que não tinha sua origem na dúvida humanística acerca do dogma e sim na dúvida religiosa quanto à confiabilidade do nosso pensamento, não apenas o impedia de abraçar uma fé sólida na Revelação, como também estabelecia entre ele e o Diabo relações bastante estreitas, embora, obviamente, nada amistosas. Não posso nem quero investigar até que ponto o professor acreditava na existência real do Adversário, mas tenho para mim que onde quer que haja Teologia – e sobretudo uma teologia ligada a um vulto tão enérgico como Ehrenfried Kumpf – o Diabo também deve entrar no quadro, preservando sua autenticidade complementar à de Deus. Seria fácil dizer que teólogos reputam essa figura apenas como um “símbolo”. A meu ver, a Teologia em si não pode ser moderna, o que talvez seja uma das grandes qualidades dela. E no que toca ao simbolismo, não entendo por que se deva considerar o Inferno mais simbólico que o Céu. O povo certamente nunca fez isso. Sempre sentiu maior intimidade com a imagem brutal, obscenamente humorística, do Diabo do que com a Majestade Suprema, e Kumpf, à sua maneira, era um homem do povo. Quando se referia a “Belzebu e sua espelunca”, como gostava de fazer, servindo-se dessa denominação levemente burlesca, mas muito mais convincente do que a usual palavra “inferno”, absolutamente não se tinha a impressão de ele empregar um linguajar simbólico. Muito ao contrário, conferia-se a suas palavras o sentido de “pura verdade tudesca, sem cautelas nem rodeios”, e o mesmo acontecia com relação ao próprio Adversário. Eu já disse que Kumpf como erudito, como homem de ciências, fazia concessões ao racionalismo crítico quanto à crença na Bíblia, e com um tom de probidade intelectual “abandonava” pelo menos ocasionalmente algumas posições. Mas, no fundo, via como o Pai da Mentira, o Espírito Maligno exercia sua atividade justamente na razão, e raras vezes tratava disso, sem acrescentar a frase: Si Diabolus non esset mendax et homicida! Só a contragosto, pronunciava o verdadeiro nome do Gênio do Mal; geralmente o circunscrevia ou corrompia ao modo povo, chamando-o de Diacho, Decho ou Dianho. Mas, nesse jeito meio temeroso meio gracejador, de esquivança e alteração, havia algo de rancoroso reconhecimento da realidade do Inimigo. De resto, dispunha Kumpf de boa quantidade de rebuscadas e saborosas designações do mesmo, tais como Cão-tinhoso, Pedro-botelho, Mestre Capiroto ou Senhor Dicis-et-non-facis. Expressões que de modo igualmente jocoso davam a conhecer a relação intensamente pessoal, de forte rancor, que Kumpf mantinha com o opositor de Deus. (Doutor Faustus, Thomas Mann, páginas 128-130).
Amigos,
Esse Kumpf, vocês podem ver, se vocês lerem o trecho acima e se vocês conhecem Thomas Mann, esse Kumpf é talvez o mais diferente possível de Mann que se pode imaginar.
Esse é um dom de grandes escritores: dar a personagens de ideologias totalmente diferentes das suas a credibilidade necessária para o leitor considerá-los pessoas reais. E, até mesmo, nos fazer considerar sentimentos e pensamentos opostos aos seus bem elaborados e até mesmo profundos. Talvez Dostoievsky tivesse sido, entre os grandes escritores, o único capaz de competir com Mann na capacidade de exibir um amplo panorama cultural, tratando todas as ideologias com igual equidade e profundidade, mas Dostoievsky não tinha a cultura de Mann, e por isso Dostoievsky permanece para sempre muito profundo, mas limitado, quanto a este ponto em especial, a exposição do debate ideológico.
É de se notar, ainda, que o Diabo que depois, muitas páginas depois (Doutor Fausto é um livro grande, muito grande) tenta Adrian Leverkühn é uma versão cínica de Kumpf. Assim como o Nazismo é uma versão cínica da cultura, do romantismo e do patriotismo alemães. Cinismo nunca é bom. No máximo, às vezes, é inócuo.
Posted at 10:06 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, December 13, 2009
Posted at 01:25 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, December 06, 2009
Não ser mais jovem não é motivo de tristeza. Mas ficar triste por isso é. * * * * * * * * * * * * * * * * O presidente mais popular da história do Brasil não tem nenhuma aspiração mais profunda do que ficar num bar se divertindo com seus amigos. * * * * * * * * * * * * * * * *
Sexo é um ato deprimente, sujo, com pouco ou nenhum prazer, na maioria das vezes. Mas as poucas vezes em que o sexo dá prazer e, principalmente, as lembranças dessas poucas vezes compensam todos os incovenientes do ato sexual. * * * * * * * * * * * * * * * *
Sexo é um ato deprimente, sujo, com pouco ou nenhum prazer, na maioria das vezes. As aventuras, de qualquer tipo, fracassam na maioria das vezes. Existe prova maior da estupidez humana que a combinação de sexo e aventura ser um dos maiores ideais vida da humanidade (e isso inclui a maioria dos moralistas)? * * * * * * * * * * * * * * * *
Os homens têm vantagens sobre as mulheres, e as mulheres têm vantagem sobre os homens. Eu creio que a maior vantagem das mulheres sobre os homens é que para elas é mais difícil aceitar a combinação de sexo e aventura. * * * * * * * * * * * * * * * *
É incrível como a política ficou mediocre depois que o sexo passou a ser um tema político. * * * * * * * * * * * * * * * *
É uma opinião aceitável, mesmo que eu não concorde, achar cinema um tipo de arte, como a literatura ou a pintura. Mas então, quem é o artista? Achar o diretor o artista do cinema é como achar um engenheiro o artista da arquiterura. * * * * * * * * * * * * * * * * Acreditar que a política externa do Brasil nada tem a ver com o Foro de São Paulo é como acreditar que a ação da policia federal contra Murad nada teve a ver com o fato de Roseana Sarney ameaçar tirar José Serra do segundo turno, em 2002. * * * * * * * * * * * * * * * *
Do Claudio Avólio: Dois blogues conceituados no universo direitista (sorry, no Jabá) afirmaram mais ou menos que "educação não é a solução."Espero que eles tenham apenas confundido os termos "educação" e "escolaridade". Sim, porque eu até consigo imaginar sociedades de merda (Olha nóis aí, gente!) com a população tendo algum nível de escolaridade, mas não conheço uma sociedade minimamente evoluída onde sua população não é educada no sentido estrito do termo.Na verdade, eu acho que a confusão é entre "educação" e "política educacional" - a primeira é muito mais profunda que simplesmente colocar criança na escola e escolher disciplinas relevantes e um bom conteúdo. E inclui também o que as crianças aprendem em casa, com seus pais, algo que o Estado não pode e nem deve tentar melhorar. A esperança é que as pessoas realmente educadas se casem, tenham filhos e os eduquem tão bem quanto elas mesma foram educadas, e que mais pessoas sigam esse exemplo, até que os realmente educados sejam maioria. É difícil dar certo, eu sei. Alguém tem uma idéia melhor? * * * * * * * * * * * * * * * *
Do Pedro Sette Câmara: Eu mesmo admiro T. S. Eliot, mas acho que nunca vou amar sua poesia como amo a de W. B. Yeats.Eu diria que essa é a diferença entre poesia e prosa: a primeira deve ser sempre amada e não, necessariamente, admirada, a segunda não necessariamente amada, mas sempre admirada. Essa diferença era mais óbvia no século XIX do que hoje. * * * * * * * * * * * * * * * *
Ainda do Pedro Sette Câmara: Ok. Eu falava de TV, não de cinema. É que a série Aline tem pelo menos uma mentira existencial profunda, gritante, espalhafatosa. Meninas como Aline, essa Angelina Jolie da Liberdade, jamais se sentiriam atraídas por aqueles patetas que são seus "namorados". Não sentiriam atração nem por um, nem por dois; e talvez nem mesmo meninas mais parecidas com um Cheddar McMelt chegassem a sentir atração por aqueles dois emasculados McChickens. Não acontece. Nunca aconteceu. Jamais. Eu garanto. Aqueles dois são causa de lesbianismo; não se pode culpar a mulher por querer virilidade, nem por encontrar mais virilidade numa amiga do que em dois boçais subjugados. Ocorre-me que se fala só de sexo, de atração física, e não de amor. E se Aline tiver amor pelos "dois boçais subjugados"? É difícil de acreditar, mas seria mais crível (e também mais honesto) que se fosse só uma questão de atração física, pois o amor é muito mais difícil de entender e explicar. Não havia sexo entre Lou Salomé, Nietzsche e Paul Rée, mas havia amor. Um dos homens enlouqueceu, o outro se matou, mas a mulher, que tinha amava os dois, sobreviveu até a velhice. É trágico, mas crível, pois o amor é uma espécie de loucura e de loucos tudo se acredita. Mas a tragédia, inconsciente, de Aline é ainda maior: é a tragédia de uma parte da sociedade, a mais intelectualizada, que é incapaz de imaginar que se façam loucuras por amor, e é incapaz de conceber o amor, com ou sem sexo. * * * * * * * * * * * * * * * *
Disse Paulo Francis (não com essas palavras, mas o sentido é o mesmo): Ser adulto é ir por um caminho que você sabe muito bem que siginifica sua destruição no final, mas mesmo assim você vai, por saber muito bem, também, que não há alternativa melhor. Não é a toa que tanta gente não quer amadurecer.* * * * * * * * * * * * * * * *
Maria Antônia e O Tapeceiro Estofador, do Dennis. É maravilhoso como, nos contos do Dennis, uma frase pode mudar tudo, e tudo permanece belo.
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Alias, vale seguir o Dennis no Twitter, se mais não fosse para rir do Lula. Sempre é melhor rir que chorar.
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Disse Madame de Staël:
"Na vida você tem de escolher entre tédio e sofrimento."No Brasil, conseguimos combinar os dois.
Posted at 11:26 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, November 29, 2009
Amigos, Um dos defeitos e das qualidades de um blog é que ele passa por fases, como seu autor. Dirão que uma coluna de um cronista também passa por isso, mas há uma decisiva diferença: o colunista, preso às obrigações de seu contrato, não pode dar vazão às suas crises existenciais, espirituais ou psicológicas, crises que são problema dele, e não de seus leitores, nem de seu patrão, nem da Urbe, nem do Orbe. Um blogueiro, pelo contrário, é autônomo: pode dizer que está mal, simplesmente, pode dizer que está mal e por isso escreve mal, pode dizer que está mal e por isso escreve pouco, ou pode estar mal e não dar satisfação nenhuma. O máximo que um cronista pode, se mal estiver, é fazer de sua má situação psicológica, sociológica ou teológica o assunto da crônica. Devo dizer, no entanto, meus caros, que se dei a impressão de estar passando por algum tipo de crise, eu esclareço que não. Tenho problemas, como todo mundo, ao menos é por uma boa razão: estou noivo, e minhas segundas núpcias (não cheguei a oficializar as primeiras, é verdade, mas me considero como tendo sido casado) serão em dezembro. Com a graça de Deus, serei feliz. Minha noiva é uma adorável doidinha, sensível, frágil, espirituosa, letrada e teimosa. Muito teimosa. Ideal para minha imaginação por vezes delirante e minha tendência a me acomodar. Se tenho problemas, tenho também vontade de resolvê-los, vontade que minha noiva me dá. Graças a Deus. Mas chega de falar de mim: o assunto agora são vocês, meus leitores, vocês que têm blog, alguns de vocês, na verdade, tenho um meme para vocês, um meme literário. É simples, como convém: qual blogueiro, e quando, citou um escritor que você admira? Não, não precisa reproduzir a citação (mas seria bom se fizesse), o importante, mesmo, é linkar o post da citação, ou pelo menos dizer o nome do blog e a data do post, e passar o meme adiante. Para quantos? Eu deixo ao critério de vocês. Eu passo a quatorze blogueiros: Igor Taam, Fábio Marton, Jorge Nobre, André Oliveira, Francisco Escorsim, Claudio Avólio, Beto Queiróz, Fábio Barreto, Nariz Gelado, Julio Lemos, Pedro Sette Câmara, Rafael Azevedo, Giovani MacDonald e César Miranda. Para mais blogueiros eu passaria, se não fosse o medo de provocar feras feridas, ainda que muito queridas (ou de parecer provocação, o que afinal é a mesma coisa, não é?). Mas também tenho que dar o exemplo, e citar a citação de um grande autor, e o blogueiro que a citou. Fui buscar na minha memória, que os bons posts ficam na memória, e fui buscar no blog do Fábio Danesi Rossi, uma citação de Tolstoi: - Pois bem, discutamos" - Pois bem, discutamos - começou o príncipe André. - Falas em escolas - prosseguiu contando nos dedos, - no ensino, etc., isto é, queres arrancá-lo - apontou um mujik que passava diante deles e tirava o chapéu - de seu estado bestial e dar-lhe necessidades morais, quando eu entendo que a única felicidade possível é a do animal, e tu queres privá-lo dela. Eu o invejo e tu queres fazê-lo semelhante a mim, mas sem dar-lhe meus meios. Outra coisa. Dizes: facilitar seu trabalho, quando eu acho que o trabalho físico é para ele uma necessidade, da mesma condição de sua existência como é o pensamento para ti e para mim. Tu não podes deixar de pensar. Eu só adormeço às três da manhã, e diversos pensamentos me assaltam e não me deixam dormir. Revolvo-me na cama e não consigo adormecer antes da madrugada porque penso e não posso deixar de pensar, assim como ele não pode deixar de lavrar a terra, ceifar o trigo, pois se assim fizer irá para a taverna e cairá doente. Assim como eu não suportaria seu pesado trabalho físico e morreria ao cabo de uma semana, ele também não suportaria minha ociosidade física, engordaria e acabaria morrendo. Em terceiro lugar, o que foi que disseste? (O príncipe André dobrou o terceiro dedo.) Ah, sim, os hospitais, os remédios. Ele tem um ataque de apoplexia, vai morrer, e tu cuidas e o cura; ele será inválido e um fardo para todo mundo durante dez anos. Para ele teria sido preferível morrer; outros nascem e existe tanta gente. Se tu lamentasses ter um operário a menos ainda se poderia compreender, mas não, tu cuidas dele por amor ao próximo. E isso lhe é desnecessário. E além disso, por que razão acreditas que a medicina já tenha curado alguém? Matado, sim! - disse ele, franzindo as sobrancelhas com cólera e desviando o olhar de Pedro." Tolstoi, Guerra e Paz (tradução de Gustavo Nonnenberg, editora Ediouro).Discutamos, sim, e também passemos adiante este meme. Por certo, virá muita coisa boa.
Posted at 12:16 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, November 22, 2009
O tempo... vocês já sabem.
Posted at 05:39 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, November 15, 2009
Posted at 11:21 am by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, November 08, 2009
Eu não sei se alguém ainda se lembra da antiga revista Status. Começou como revista de, digamos, difícil definição, ao menos para os jovens de hoje. Era uma pornochanchada politizada e intelectualizada, uma mistura de Playboy e O Pasquim. Era uma boa leitura, porque a esquerda brasileira, naquele tempo, era mais inteligente do que hoje – basta dizer que eles adoravam Fernando Henrique Cardoso, um homem que, apesar de seus (muitos) defeitos, ao menos inspira respeito intelectual. O jornalismo também, em geral, era mais inteligente do que hoje – um dos colunistas habituais da revista era Paulo Francis. E Status não era apenas uma pornochanchada de intelectuais de esquerda festiva, era aberta a social-democratas mais ou menos liberais em economia, como o Francis, e a vários apolíticos, esnobes culturais. A revista, depois de ter durado mais de 10 anos, deixou de lado a pornografia, por volta de 1985, e investiu apenas no esnobismo cultural. Também deixou de lado, um pouco, o humorismo. A revista ficou ótima, e perdeu público. Durou apenas três anos. Triste, lembrar isso. Eu tenho umas 10 aqui comigo. Espero um dia poder digitalizar todas e por na internet. Por hora, farei um post com trechos da revista, o número 154, de 1987 (Eu não sei de que mês é a revista, só informam o número e o ano). Trecho de "Um Fantasma Ronda Woody Allen", de José Onofre (página 10): "É uma peregrinação. Todo mundo que leu dez livros adora ele. Todo mundo que leu 200 livros acha ele ótimo. Todo mundo que leu mil livros tem suas críticas. Todo mundo que leu três mil livros só gosta dele. Aos 51 anos, no terceiro casamento, Woody Allen é um dos ícones letrados mais comentados do mercado. Foi capa da revista Esquire de abril e, já se sabe, Mia Farrow está grávida dele. Ele está na quarta mulher e na terceira analista. Ou na terceira mulher e na quarta analista. Ele dá entrevista onde não diz uma piada, raramente faz uma brincadeira. Filma nos EUA as gosta mesmo de Ingmar Bergman, Akira Kurosawa e Luis Buñuel. Seus filmes andaram parando de ser engraçados e o pessoal já não ia ao cinema para vê-lo. Em Hanna e Suas Irmãs e A Era do Rádio as piadas voltaram. Mas ele não estava muito satisfeito. "Um filme que eu faço pode ser muito popular e não haver correlação entre a popularidade e a qualidade". Ele fica nervoso com o sucesso de público. Algo está errado. E ele fica se roendo. Ninguém faz fila para ver Bergman ou Buñuel. Ele acha que o melhor filme que ele fez é Stardust Memories, um Fellini délavé. Não quer tanto assim que a platéia ria e se divirta." Trecho de "As Boas Virtudes de uma Casa Espanhola", de Paulo Putterman (página 16): "Existe um freqüentador de restaurante cuja característica principal é o nomadismo. Ele é ativado por uma obsessiva necessidade de descobrir em alguma rua remota o lugarzinho quieto, simples, limpo e competente que o surpreenderá com um requinte raro, que ele homenageará com vinhos brancos e secos como uma boa neblina e tintos espessos como os grandes sentimentos. Dificilmente os encontrará, pois não existem mais. Alguém já os descobriu e os tornou públicos. Alguns feneceram, outros prosperaram sem perder sua dignidade nem seus cozinheiros. Mas o assédio do público multiplicou suas mesas, seus garçons, seu faturamento. E eles viram que era bom e trataram de continuar melhorando para não perder seu público. Foi mais ou menos o que aconteceu com a casa de um exemplar cavalheiro espanhol que desembarcou em São Paulo (...)." "Mas apesar de todas estas maravilhas, o grande momento da casa é sem dúvida alguma sua Paella Don Curro com Langosta, uma imponente especialidade do chefe cuja receita, que dá para quatro pessoas comerem bem, é a seguinte: Ingreditentes. - 200 gramas de arroz previamente misturadas a uma colher e meia de açafrão. - azeite. - uma lagosta. - 18 camarões grandes. - mariscos, nacos de polvo, lulas e peito de frango cortado em pedaços grandes. - 3 pimentões vermelhos. - 2 tomates maduros. - 100 gramas de ervilhas petit pois. - cebola, alho e cebolinha. Preparo: Numa frigideira grande jogar uma boa porção de azeite e refogar os temperos, acrescentando depois os tomates picados e são a gosto, formando o molho. Depois jogue a lagosta, os camarões, mariscos, o polvo, as lulas e a carne de frango. Deixe cozinhar um pouco, sempre controlando o sal. Jogue os pimentões, em pedaços grandes e as ervilhas. O tempo total de cozimento é de aproximadamente uma hora. Ponha um bom azeite espanhol na mesa e regale-se." Trecho de "Um Gosto e Milhões de Doláres", de José Onofre (página 33): "O trabalho de Renato Magalhães Gouvêa é o seu negócio. E um belo negócio, tão solido, cuidadosamente esculpido e carinhosamente acabado como o grande console brasileiro de cedro, do século XVIII, peça n.º 314 di seu último leilão. Mas até o momento desta 18ª venda, com 340 lotes distribuídos com tanto cuidado que chegaram, como nas vezes anteriores, a ter seu diagrama encantando os sócios representantes da Sotheby's, foi uma longa trajetória. Durante a fusão temporária entre FAAP e MASP, ainda era o advogado que se sentava à mesa dos dois conselhos, ouvindo com atenção as discussões nem sempre bem sucedidas entre os conselheiros mais prudentes da FAAP e o arrojado grupo do MASP, onde pontificavam, pela imaginação e o gosto da iniciativa, Assis Chateaubriand e Pietro Maria Bardi: "Foi meu contato mais profundo com o MASP e estas duas personagens fulgurantes. Bardi vivia e trabalhava como se todo o dia fosse o último dia de sua vida. Não parava de imaginar e criar." Nem de viajar. E lá ia o Renato meter-se ao lado de Bardi em poltronas estreitas de aviões que os desembarcavam nas cidades onde estavam os maiores acervos, os maiores mercados e os maiores mercados e os maiores marchands de arte do mundo". Trecho de "O Radical da Qualidade", entrevista de Luis Schwarcz a Wagner Carelli e José Onofre (página 48): "P – Durante um hiato de anos a editoração no País passou por más traduções, por lançamentos eqivocados e outros tropeços na área editorial brasileira. Então chegou a Companhia das Letras com um projeto de qualidade e de obstinada coerência com esse objetivo. A impressão que fica é que os antigos livreiros, os pioneiros do livro de qualidade no Brasil, como Jorge Zahar e Ênio Silveira, pararam no tempo, não avançaram, e você veio a ocupar esse espaço.L.S. – O Ênio e o Jorge fizeram a história do livro no Brasil. Criticá-los, hoje, é fácil. Certo, era uma etapa em que a dosagem de profissionalismo era muito baixa. Mas era o tempo de dar porrada na parede. A mentalidade era missionária. P – Sim, mas você tem um exemplo melhor (ou pior): a Editora Globo, com todo aquele gigantesco acervo e um poder ainda maior, também acabou tropeçando na fase do profissionalismo, até ser comprada pela Rede Globo.L.S. – Mas o caso do Jorge Zahar é diferente. Ele é o gentleman das edições. E no seu exemplo ancora um pouco minha estratégia. O profissionalismo corre junto ao respeito, e nesse equilíbrio o Jorge é um mestre. Eu converso muito com ele. É verdade, porém, que quando eu falo em números eles se surpreendem, e se mostram até mesmo céticos. O Ênio Silveira não acredita que possam ser vendidos quatro mil exemplares de O Palácio da Memória, de Jonathan Spence. A Companhia das Letras vendeu. E é verdade. Eu não iria inventar. Eu tenho de pagar direitos autorais, não sou trouxa. P. – Aí está a questão: como a Companhia das Letras consegue sucesso comercial com livros de qualidade que dariam arrepios a outros editores, sem alterná-los com opções garantidas de venda?L.S. – O mercado brasileiro evoluiu de uma forma meio ciclotímica. Você tem um primeiro período, com a Globo, a Nacional, a José Olympio e um bom perfil de qualidade. Depois vem o período do Ênio e do Jorge, com a Civilização Brasileira e a Zahar Editores, no qual se tem um dado de combatividade muito forte – mas um período em que as prioridades talvez fossem outras – posicionar-se, lançar propostas. As editoras eram instituições políticas: o mercado de livros não sofreu censura prévia – sofria censura posterior, e que talvez fosse pior – e trabalhou com uma postura de independência muito importante, mesmo sob riscos de apreensão. Nesse período, a questão profissional tinha de ficar prejudicada: as editoras eram pólos de atuação social e cultural. A relação era outra, era muito mais – e precisava ser – de favor, de troca. Com o fim da ditadura, esse período teria de ceder a outro, no qual havia a exigência da ampliação do mercado. E vão surgir algumas editoras que descobrem o profissionalismo: a Nova Fronteira, a Record e a Brasiliense, à frente delas, cada uma a sua maneira – mas sempre com formulas hibridas. A Nova Fronteira, no seu melhor período, editava Virginia Woolf e Thomas Mann juntamente com o Robert Ludlum e o Edgar Wallace, best sellers que disputava com a Record. A Brasiliense alternou o elogio da mais alta filosofia, em edições bilíngües e comentadas, com a coleção Primeiros Passos. Eu não tenho nada contra esse tipo de perfil, mas o meu é outro: eu radicalizei na qualidade, e não me dividi." Trecho de "O Salto que Marx não Deu", de Benício Medeiros (página 68): O respeitável e insuspeito currículo de Konder lhe confere com certeza algumas regalias junto às esquerdas, inclusive o direito de criticá-las. Ele tem dez livros de ensaios publicados, sendo que os que gosta mais são Barão de Itararé – o Humorista da Democracia, e o best-seller O Que É Dialética?, da Brasiliense, já em sua 17ª edição. Em 1970, esteve preso com a mãe – Dona Yone – uma senhora cujos doces modos afastam qualquer suspeita de ação terrorista – e levou alguns choques para confessar o paradeiro do dirigente comunista José Sales, então seu cunhado. Em 1972, já separado da primeira mulher, partiu para o exílio na Alemanha. De volta ao Brasil, em 1978, teve de recomeçar tudo. A sua tese de doutorado representa, na verdade, um humilde e tardio ingresso nos quadros universitários, pois quando deixou o Brasil era apenas advogado do Estado. Hoje (em 1987), sobretudo depois da aprovação de sua tese, está numa ótima. Além de professor da Pontifícia Universidade Católica e da Universidade Federal Fluminense, exerce as funções de assessor parlamentar do deputado Milton Temer, do PMDB. Está tão bem que já marcou casamento com a jornalista Maria Cristina, com quem vive há dez anos, e de quem tem um filho de oito, Carlos Nelson. Da mesma forma que o seu marxismo pessoal tem raízes atávicas, Leandro Konder acha, em A Derrota da Dialética, que o mal do marxismo brasileiro também se localiza em suas próprias origens. A má assimilação doutrinária inicial resultou numa série de equívocos que se arrastariam pelos anos. No começo, a recepção das idéias de Marx misturou-se ao ideário positivista, do qual boa parte dos marxistas brasileiros – Luis Carlos Prestes entre eles – jamais conseguiu se livrar. Depois veio o stalinismo, que tem mais a ver com camburões do que com a dialética. "O pensamento dialético", diz Konder, "pressupõe sensibilidade para se entender as contradições do real, levando-se em conta o novo, o que está surgindo. No Brasil, esse tipo de inquietação foi sufocado desde o começo." "Em contraponto ao humor e à perspicácia de Machado, a maior parte dos textos que Leandro Konder consultou mostram uma enormidade de canastrões parnasianos, que falavam de Marx sem nunca tê-lo lido ou, a partir do que entendiam por marxismo, entabulavam teorias não apenas absurdas como às vezes até racistas. Este é o caso do escritor Octávio Brandão, autor de Agralismo e Insdustrialismo, que nos anos 20 arvorou-se ao título de Lênin brasileiro. Foi Brandão quem lançou a curiosa tese dos "intermediários" – os quais, segundo ele, atrapalhavam o desenvolvimento brasileiro. Por "intermediários" entendia aqueles que ficavam entre os pólos extremos de alguma coisa, como por exemplo, os mulatos e demais mestiços. Matos Pimenta, um jornalista muito conhecido na sua época, passa uma espinafração no leninismo. Um homem, que escreve um livro intitulado Que Fazer?, afirmou Pimenta, revelando tamanha indecisão diante da vida, não podia servir de exemplo aos brasileiros, que estavam atrás de respostas, e não de perguntas. Konder notou que pouquíssimos intelectuais brasileiros, até os anos 30, tinham lido alguma coisa de Marx. Talvez Tobias Barreto e Silvio Romero, entre poucos outros. A maior parte – Rui Barbosa inclusive – citava só de ouvido." Trecho de "Bonitinhos, mas Impostores", de Ênio Squeff (página 74): "Há anos sou convidado a fazer palestras sobre música. Tenho tido relativo sucesso. Sem falsa modéstia, porém, quem faz sucesso mesmo é Beethoven, Mozart, Haydin, Bério, Bartok e todo o resto. A revelação de que pessoas comuns – operários inclusive – gostam da grande música exatamente como ela é talvez espante alguns políticos ou mesmo músicos. Mas é uma observação, a rigor, redundante: equivale a dizer que a grande arte é, no fundo, apenas a grande arte. Não é o caso, em síntese, de recorrer a Adorno para explicar um truísmo. Mas não é uma idéia que ocorre a todo mundo. E se constato, por experiência, que não é preciso saber ler uma clave de dó na terceira linha para que a grande música seja apreciada, não posso deixar de concluir que, nisso tudo, o que fica é a imensa, a abismal ignorância de não poucos intelectuais – e não exatamente sobre claves de dó, mas sobre música como matéria de cultura. Salvo raríssimas exceções, os intelectuais jovens e a esmagadora maioria de seus professores universitários sabem da grande música exatamente nada. Já ouvi de professores de filosofia raciocínios imensos sobre as aplicações de alguns conceitos heideggerrianos ou mesmo adornianos sobre Machado de Assis ou Goya. Mas quando os aplicam à música, o exemplo é Pixinguinha. O coetâneo de James Joyce não seria Weber, mas Caetano Veloso... A menção à arte brasileira só teria um pressuposto – na última cançãozinha de sucesso, quando não num rock. Conheço um professor que provoca frissons emocionados na platéia quando, ao citar Malarmé, encaixa não se sabe como, uma frase qualquer extraída de Gilberto Gil. O sucedâneo musical de Thomas Mann não seria Richard Strauss, ou Gustav Mahler – mas bem plantada canção de Donga. Claro, não deixa de ser engraçado. Mas também não deixa de ser falso e, convenhamos, de ridículo. Machado de Assis foi admirador incondicional de Alberto Nepomuceno (talvez o maior compositor brasileiro de todos os tempos). Nepomuceno foi um nacionalista radical e talvez dissesse dos músicos populares de seu tempo o que poucos ousariam, pois ele os admirava. Mas de Nepomuceno a Machado, passando por Silvio Romero – para não mencionar Mário de Andrade a quem todos os intelectuais da USP ou fora dela têm como modelo (e ele o é), foram raras as confusões. Não caíram no populismo barato de hoje em dia. Certamente tinham escrúpulos em achar que podiam suprir sua mauvaise conscience trocando valores pela demagogia escorada na ignorância de serem surdos à grande música para enaltecerem a outra. Pois é mesmo disso que se trata. Não vou dizer, portanto, que Benito Juarez ou Karabtchevsky sejam os últimos réus nas concessões que fazem, já que é desses professores de filosofia, literatura, sociologia etc. dos "modelos de intelectuais", que eles recebem o incentivo para fazerem o que fazem. São culpados por mera comiseração intelectual. Não lhes ocorre que um intelectual que não conhese as nove sinfonias de Beethoven, que não sabe quem é Alban Berg ou Stravinsky ou que prescinde das óperas de Mozart é apenas e tão-somente um rotundo ignorante. É assim mesmo. Ou seja, pessoas que acham que podem discutir o romantismo alemão sem conhecerem Schumann ou Schubert, ou que mencionam Dostoievsky e Turgueniev sem saberem das obras fundamentais de Mussorgsky, Rimsky Korsokov e Tchaikovsky, podem ter idéias bonitinhas e agradáveis – mas são impostores. Enfim, que falem – mas não sobre música." Trecho de "Um Estudo em Cinzento", de José Onofre (página 76): "o maior mistério enfrentado por Sherlock Holmes foi ele mesmo. Relações difíceis com as mulheres e uma inteligência generosa que se dedicava a apreender apenas as ciências e as técnicas que serviam como lógicas auxiliares à investigação da ação criminosa. Holmes, homem refinado de extrema ignorância, pragmático do conhecimento, era extremamente contemporâneo – para não dizer excessivamente otimista – ao considerar a minuciosa leitura dos jornais uma forma de saber realmente o que se passava fora do limitado mundo de carrascos e vítimas que iam ancorar no apartamento da Baker Street. O próprio Holmes era um marginal auto-ungido. Embora em quase nada se opusesse as regras básicas do vitorianismo, seu desprezo pelas formalidades, pelas instituições policiais e a tentação da misantropia, do sigilo e das especulações sombrias, o colocavam à margem das convenções mais óbvias, pelo menos das que se conhece, referenciadas por Conan Doyle." "Em 1901, Doyle não resistiu mais e, numa famosa entrevista (há sherlockianos que a têm enquadrada em suas paredes) admitiu ao repórter que Watson poderia ter se enganado ao autenticar a morte de Sherlock Holmes. O homem estava voltando, do mais profundo dos abismos e os leitores estremeciam na mais legitima das alegrias. Mas os especialistas – ah, esses eternos criadores de caso – diziam que estes oito anos de descida ao inferno o haviam mudado, que não era mais o mesmo e que nunca se recuperou e conseguiu ter o encanto dos primeiros anos. Talvez seja verdade mas a mágica de Sherlock Holmes nunca esteve apenas no vigor inicial da imaginação e do texto de Conan Doyle. Foi e ainda é algo muito maior do que os talentos de um autor. Estava e está na cumplicidade de um público que o elegeu como um modelo muito especial de independência e habilidade diante dos aparentemente imensos enigmas que enfrentava. Ele tornava o mundo mais simples e manejável sem precisar de muito trabalho, muito dinheiro ou muito poder, apenas usando habilidade disponíveis, como a observação e um certo aparato mental bem cuidado. Sua excepcionalidade era descodificar o mais cifrado dos crimes, mostrando a banalidade das motivações por trás do até então inexplicável. Entrava em depressões e sumia do mundo, para reaparecer mais bem disposto e sagaz do que nunca. Era solitário, dependente de alguns hábitos difíceis de quebrar, tinha medo dos outros e das mulheres, sempre bem disfarçado, olhava o mundo com um certo desprezo, alguma indiferença. Nisso, um homem comum. Mas era dono do seu trabalho e do seu mundo, escolhia seus adversários e os batia. Nisso, um homem de características excepcionais. E depois ele andava por uma cidade mítica e subterrânea, sob névoa permanente e conhecia cada um de seus cantos, que percorria comandando cocheiros e debochando da polícia. Conhecia venenos estranhos, distinguia um charuto cheirando suas cinzas, possuía aliados nos lugares mais indesejáveis mas só precisava de Watson, de vez em quando. Se ele não existisse, alguém precisaria inventá-lo."
Posted at 08:59 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, November 01, 2009
Georges Seurat, e o neo-impressionismo
Muito atento ao cientifismo ótico de seu instante, Georges Seurat (1859-1891), o mais representativo dos neo-impressionistas, ensaiava já por 1882 uma pintura de toques decididamente fragmentados, intensos de cor e luminosos. Uma fragmentação da que mais tarde procederiam os nomes de divisionismo e pontilhado. O mesmo Seurat funda, em 1884, juntamente com os artistas rejeitados pelo salão oficial, a Sociedade de Artistas Independentes, presidida por Odilon Redon e em cujas exposições o Neo-Impressionismo poderia dar-se a conhecer e contrastar. Pode-se dizer que em 1888 conseguiram já os propósitos da nova empresa neo-impressionista, cujos outros militantes da primeira jornada seriam o também muito importante Paul Signac (1863-1935), Albert Dubois-Pillet (1845-1926), Henri-Edmond Cross (1856-1916), Charles Angrand (1854-1926) e, só temporáriamente, como mais atrás foi dito, o grande impressionista Camille Pisarro. Além das possibilidades brindadas pelo Salão dos Independentes, efetivo aglutinante intelectual seriam para eles as reuniões do Café Marengo e do Café de Orient. Levando muito a sério a conjunção ciência-arte. Até tal ponto que Signac fez tudo quanto pôde para que na primeira, na ciência ótico-cromática, lhe ensinasse o longevíssimo e venerável Chevreul. Como anos mais tarde, em 1899, Signac publicaria uma obra teórica tão básica quanto De Eugéne Delacroix ao Neo-Impressionismo. Obra própria de um novo tempo do artista "contemporâneo", não só incitado a explicar sua arte; obrigado também a dar a explicação da tendência em que milita, sentida como "crença", sistema, dogma... a desejar ver imposta nos outros, excludente de outros modos de conceber e fazer. Signac deixou clara a metodologia seguida pelo Neo-Impressionismo: potenciar ao máximo a luz, a cor e a harmonia; mediante a fusão ótica cromática – na retina do espectador, não com tintas misturadas sobre a paleta ou sobre a tela –, dois pigmentos "puros" equivalentes aos dos prismas; com a separação da cor local, cor luminosa e suas reações; mercê do equilíbrio desses fatores e das correspondentes proporções, de acordo com as leis do contraste, da degradação e da irradiação; obrigando-se a escolher o toque proporcionado às dimensões do quadro e, assim – postos à distância adequada para sua contemplação –, obter a mistura ótica das tintas divididamente dispostas em casa toque ou "ponto".Porque até termo preocupava a pureza da cor, os neo-impressionistas se propuseram uma maior limpidez misturando-o na visão do espectador, em vez de manipulá-lo sobre a paleta. Feito que era tão certo como possível, mas que ao mesmo tempo supôs a renúncia a incontáveis recursos, realizações e efeitos coloridos. Como a mais metódica execução mediante pontos, – o pontilhado sistemático –, descartava os infinitos jogos possíveis da pincelada, as decisivas riquezas da fatura. Enquanto, sem dúvida inesperadamente, se recupera a concretização da forma, o desenho que o Impressionismo tinha desvanecido por inteiro em sua esfumante percepção atmosférica. Intelectualizava-se a composição potenciando-se os foros da geometria. Se não completamente, é em grande medida abandonada a pintura ao ar livre. O ateliê do artista se transforma em laboratório da cor. O sensorialismo, a visão "natural" recebe um forte golpe; por causa da ótica cientifica. Domina a investigação a percepção; o cálculo e a formula sobre a espontaneidade converte-se em todo um risco a tentação do formulismo. Não faltam a frieza e a insipidez nos menos sensíveis, embora bem dotados para apropriar-se do sistema. Ainda um tanto decaído o exercício da intuição. Da lucidez improvisadora. A arte como lucubradora ocupação intelectual impõe a sua vontade. Encontra, talvez, demasiado rápido suas normas e, imediatamente, tudo que se está fazendo fica rapidamente previsto. E que conste que tudo quanto até aqui se diz não foi negativo. Mas simplesmente aconteceu assim. E com efetivo talento inovador. (História Geral da Arte, Ediciones Del Prado, Outubro de 1996) * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
O Sena em Courbevoie, de Georges Seurat.  Mais quadros de Georges Seurat aqui.
Posted at 01:14 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, October 18, 2009
Novo Artigo na Sociedade dos Amigos da América, e Alfred Rethel
Traduzi e publiquei um novo artigo de Robert Tracinski na sociedade.

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Nemesis, de Alfred Rethel. Mais quadros de Alfred Rethel aqui.
Posted at 07:58 pm by Flamarion Daia Júnior
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Sunday, October 11, 2009
Nem para dizer que não tive tempo eu tive tempo, meus amigos. Mas no próximo domingo terei. Prometo.
Posted at 07:07 pm by Flamarion Daia Júnior
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