Eu não sei se alguém ainda se lembra da antiga revista
Status. Começou como revista de, digamos, difícil definição, ao menos para os jovens de hoje. Era uma pornochanchada politizada e intelectualizada, uma mistura de Playboy e O Pasquim. Era uma boa leitura, porque a esquerda brasileira, naquele tempo, era mais inteligente do que hoje – basta dizer que eles adoravam
Fernando Henrique Cardoso, um homem que, apesar de seus (muitos) defeitos, ao menos inspira respeito intelectual. O jornalismo também, em geral, era mais inteligente do que hoje – um dos colunistas habituais da revista era
Paulo Francis. E Status não era apenas uma pornochanchada de intelectuais de esquerda festiva, era aberta a social-democratas mais ou menos liberais em economia, como o Francis, e a vários apolíticos, esnobes culturais. A revista, depois de ter durado mais de 10 anos, deixou de lado a pornografia, por volta de 1985, e investiu apenas no esnobismo cultural. Também deixou de lado, um pouco, o humorismo. A revista ficou ótima, e perdeu público. Durou apenas três anos. Triste, lembrar isso. Eu tenho umas 10 aqui comigo. Espero um dia poder digitalizar todas e por na internet.
Por hora, farei um post com trechos da revista, o número 154, de 1987 (Eu não sei de que mês é a revista, só informam o número e o ano).
Trecho de "Um Fantasma Ronda Woody Allen", de
José Onofre (página 10):
"É uma peregrinação. Todo mundo que leu dez livros adora ele. Todo mundo que leu 200 livros acha ele ótimo. Todo mundo que leu mil livros tem suas críticas. Todo mundo que leu três mil livros só gosta dele. Aos 51 anos, no terceiro casamento,
Woody Allen é um dos ícones letrados mais comentados do mercado. Foi capa da revista
Esquire de abril e, já se sabe,
Mia Farrow está grávida dele. Ele está na quarta mulher e na terceira analista. Ou na terceira mulher e na quarta analista. Ele dá entrevista onde não diz uma piada, raramente faz uma brincadeira. Filma nos EUA as gosta mesmo de
Ingmar Bergman,
Akira Kurosawa e
Luis Buñuel. Seus filmes andaram parando de ser engraçados e o pessoal já não ia ao cinema para vê-lo. Em
Hanna e Suas Irmãs e
A Era do Rádio as piadas voltaram. Mas ele não estava muito satisfeito. "Um filme que eu faço pode ser muito popular e não haver correlação entre a popularidade e a qualidade". Ele fica nervoso com o sucesso de público. Algo está errado. E ele fica se roendo. Ninguém faz fila para ver Bergman ou Buñuel. Ele acha que o melhor filme que ele fez é
Stardust Memories, um Fellini délavé. Não quer tanto assim que a platéia ria e se divirta."
Trecho de "As Boas Virtudes de uma Casa Espanhola", de Paulo Putterman (página 16):
"Existe um freqüentador de restaurante cuja característica principal é o nomadismo. Ele é ativado por uma obsessiva necessidade de descobrir em alguma rua remota o lugarzinho quieto, simples, limpo e competente que o surpreenderá com um requinte raro, que ele homenageará com vinhos brancos e secos como uma boa neblina e tintos espessos como os grandes sentimentos. Dificilmente os encontrará, pois não existem mais. Alguém já os descobriu e os tornou públicos. Alguns feneceram, outros prosperaram sem perder sua dignidade nem seus cozinheiros. Mas o assédio do público multiplicou suas mesas, seus garçons, seu faturamento. E eles viram que era bom e trataram de continuar melhorando para não perder seu público.
Foi mais ou menos o que aconteceu com
a casa de um exemplar cavalheiro espanhol que desembarcou em São Paulo (...)."
"Mas apesar de todas estas maravilhas, o grande momento da casa é sem dúvida alguma sua
Paella Don Curro com Langosta, uma imponente especialidade do chefe cuja receita, que dá para quatro pessoas comerem bem, é a seguinte:
Ingreditentes.
- 200 gramas de arroz previamente misturadas a uma colher e meia de açafrão.
- azeite.
- uma lagosta.
- 18 camarões grandes.
- mariscos, nacos de polvo, lulas e peito de frango cortado em pedaços grandes.
- 3 pimentões vermelhos.
- 2 tomates maduros.
- 100 gramas de ervilhas petit pois.
- cebola, alho e cebolinha.
Preparo:
Numa frigideira grande jogar uma boa porção de azeite e refogar os temperos, acrescentando depois os tomates picados e são a gosto, formando o molho. Depois jogue a lagosta, os camarões, mariscos, o polvo, as lulas e a carne de frango. Deixe cozinhar um pouco, sempre controlando o sal. Jogue os pimentões, em pedaços grandes e as ervilhas. O tempo total de cozimento é de aproximadamente uma hora. Ponha um bom azeite espanhol na mesa e regale-se."
Trecho de "Um Gosto e Milhões de Doláres", de José Onofre (página 33):
"O trabalho de Renato Magalhães Gouvêa é o seu negócio. E um belo negócio, tão solido, cuidadosamente esculpido e carinhosamente acabado como o grande console brasileiro de cedro, do século XVIII, peça n.º 314 di seu último leilão. Mas até o momento desta 18ª venda, com 340 lotes distribuídos com tanto cuidado que chegaram, como nas vezes anteriores, a ter seu diagrama encantando os sócios representantes da Sotheby's, foi uma longa trajetória.
Durante a fusão temporária entre
FAAP e
MASP, ainda era o advogado que se sentava à mesa dos dois conselhos, ouvindo com atenção as discussões nem sempre bem sucedidas entre os conselheiros mais prudentes da FAAP e o arrojado grupo do MASP, onde pontificavam, pela imaginação e o gosto da iniciativa,
Assis Chateaubriand e
Pietro Maria Bardi: "Foi meu contato mais profundo com o MASP e estas duas personagens fulgurantes. Bardi vivia e trabalhava como se todo o dia fosse o último dia de sua vida. Não parava de imaginar e criar." Nem de viajar. E lá ia o Renato meter-se ao lado de Bardi em poltronas estreitas de aviões que os desembarcavam nas cidades onde estavam os maiores acervos, os maiores mercados e os maiores mercados e os maiores marchands de arte do mundo".
Trecho de "O Radical da Qualidade", entrevista de Luis Schwarcz a Wagner Carelli e José Onofre (página 48):
"P – Durante um hiato de anos a editoração no País passou por más traduções, por lançamentos eqivocados e outros tropeços na área editorial brasileira. Então chegou a Companhia das Letras com um projeto de qualidade e de obstinada coerência com esse objetivo. A impressão que fica é que os antigos livreiros, os pioneiros do livro de qualidade no Brasil, como Jorge Zahar e Ênio Silveira, pararam no tempo, não avançaram, e você veio a ocupar esse espaço.L.S. – O Ênio e o Jorge fizeram a história do livro no Brasil. Criticá-los, hoje, é fácil. Certo, era uma etapa em que a dosagem de profissionalismo era muito baixa. Mas era o tempo de dar porrada na parede. A mentalidade era missionária.
P – Sim, mas você tem um exemplo melhor (ou pior): a Editora Globo, com todo aquele gigantesco acervo e um poder ainda maior, também acabou tropeçando na fase do profissionalismo, até ser comprada pela Rede Globo.L.S. – Mas o caso do Jorge Zahar é diferente. Ele é o gentleman das edições. E no seu exemplo ancora um pouco minha estratégia. O profissionalismo corre junto ao respeito, e nesse equilíbrio o Jorge é um mestre. Eu converso muito com ele. É verdade, porém, que quando eu falo em números eles se surpreendem, e se mostram até mesmo céticos. O Ênio Silveira não acredita que possam ser vendidos quatro mil exemplares de
O Palácio da Memória, de
Jonathan Spence. A Companhia das Letras vendeu. E é verdade. Eu não iria inventar. Eu tenho de pagar direitos autorais, não sou trouxa.
P. – Aí está a questão: como a Companhia das Letras consegue sucesso comercial com livros de qualidade que dariam arrepios a outros editores, sem alterná-los com opções garantidas de venda?L.S. – O mercado brasileiro evoluiu de uma forma meio ciclotímica. Você tem um primeiro período, com a Globo, a
Nacional, a
José Olympio e um bom perfil de qualidade. Depois vem o período do Ênio e do Jorge, com a
Civilização Brasileira e a
Zahar Editores, no qual se tem um dado de combatividade muito forte – mas um período em que as prioridades talvez fossem outras – posicionar-se, lançar propostas. As editoras eram instituições políticas: o mercado de livros não sofreu censura prévia – sofria censura posterior, e que talvez fosse pior – e trabalhou com uma postura de independência muito importante, mesmo sob riscos de apreensão. Nesse período, a questão profissional tinha de ficar prejudicada: as editoras eram pólos de atuação social e cultural. A relação era outra, era muito mais – e precisava ser – de favor, de troca. Com o fim da ditadura, esse período teria de ceder a outro, no qual havia a exigência da ampliação do mercado. E vão surgir algumas editoras que descobrem o profissionalismo: a
Nova Fronteira, a
Record e a
Brasiliense, à frente delas, cada uma a sua maneira – mas sempre com formulas hibridas. A Nova Fronteira, no seu melhor período, editava
Virginia Woolf e
Thomas Mann juntamente com o
Robert Ludlum e o
Edgar Wallace,
best sellers que disputava com a Record. A Brasiliense alternou o elogio da mais alta filosofia, em edições bilíngües e comentadas, com a coleção
Primeiros Passos. Eu não tenho nada contra esse tipo de perfil, mas o meu é outro: eu radicalizei na qualidade, e não me dividi."
Trecho de "O Salto que Marx não Deu", de
Benício Medeiros (página 68):
O respeitável e insuspeito currículo de
Konder lhe confere com certeza algumas regalias junto às esquerdas, inclusive o direito de criticá-las. Ele tem dez livros de ensaios publicados, sendo que os que gosta mais são
Barão de Itararé – o Humorista da Democracia, e o best-seller
O Que É Dialética?, da Brasiliense, já em sua 17ª edição. Em 1970, esteve preso com a mãe – Dona Yone – uma senhora cujos doces modos afastam qualquer suspeita de ação terrorista – e levou alguns choques para confessar o paradeiro do dirigente comunista José Sales, então seu cunhado. Em 1972, já separado da primeira mulher, partiu para o exílio na Alemanha. De volta ao Brasil, em 1978, teve de recomeçar tudo. A sua tese de doutorado representa, na verdade, um humilde e tardio ingresso nos quadros universitários, pois quando deixou o Brasil era apenas advogado do Estado. Hoje (em 1987), sobretudo depois da aprovação de sua tese, está numa ótima. Além de professor da Pontifícia Universidade Católica e da Universidade Federal Fluminense, exerce as funções de assessor parlamentar do deputado
Milton Temer, do
PMDB. Está tão bem que já marcou casamento com a jornalista Maria Cristina, com quem vive há dez anos, e de quem tem um filho de oito, Carlos Nelson.
Da mesma forma que o seu marxismo pessoal tem raízes atávicas, Leandro Konder acha, em
A Derrota da Dialética, que o mal do marxismo brasileiro também se localiza em suas próprias origens. A má assimilação doutrinária inicial resultou numa série de equívocos que se arrastariam pelos anos. No começo, a recepção das idéias de
Marx misturou-se ao ideário
positivista, do qual boa parte dos marxistas brasileiros –
Luis Carlos Prestes entre eles – jamais conseguiu se livrar. Depois veio o
stalinismo, que tem mais a ver com camburões do que com a dialética. "O pensamento dialético", diz Konder, "pressupõe sensibilidade para se entender as contradições do real, levando-se em conta o novo, o que está surgindo. No Brasil, esse tipo de inquietação foi sufocado desde o começo."
"Em contraponto ao humor e à perspicácia de
Machado, a maior parte dos textos que Leandro Konder consultou mostram uma enormidade de canastrões parnasianos, que falavam de Marx sem nunca tê-lo lido ou, a partir do que entendiam por marxismo, entabulavam teorias não apenas absurdas como às vezes até racistas. Este é o caso do escritor
Octávio Brandão, autor de
Agralismo e Insdustrialismo, que nos anos 20 arvorou-se ao título de
Lênin brasileiro. Foi Brandão quem lançou a curiosa tese dos "intermediários" – os quais, segundo ele, atrapalhavam o desenvolvimento brasileiro. Por "intermediários" entendia aqueles que ficavam entre os pólos extremos de alguma coisa, como por exemplo, os mulatos e demais mestiços. Matos Pimenta, um jornalista muito conhecido na sua época, passa uma espinafração no leninismo. Um homem, que escreve um livro intitulado
Que Fazer?, afirmou Pimenta, revelando tamanha indecisão diante da vida, não podia servir de exemplo aos brasileiros, que estavam atrás de respostas, e não de perguntas. Konder notou que pouquíssimos intelectuais brasileiros, até os anos 30, tinham lido alguma coisa de Marx. Talvez
Tobias Barreto e
Silvio Romero, entre poucos outros. A maior parte –
Rui Barbosa inclusive – citava só de ouvido."
Trecho de "Bonitinhos, mas Impostores", de
Ênio Squeff (página 74):
"Há anos sou convidado a fazer palestras sobre música. Tenho tido relativo sucesso. Sem falsa modéstia, porém, quem faz sucesso mesmo é
Beethoven,
Mozart,
Haydin,
Bério,
Bartok e todo o resto. A revelação de que pessoas comuns – operários inclusive – gostam da grande música exatamente como ela é talvez espante alguns políticos ou mesmo músicos. Mas é uma observação, a rigor, redundante: equivale a dizer que a grande arte é, no fundo, apenas a grande arte. Não é o caso, em síntese, de recorrer a
Adorno para explicar um truísmo. Mas não é uma idéia que ocorre a todo mundo. E se constato, por experiência, que não é preciso saber ler uma clave de dó na terceira linha para que a grande música seja apreciada, não posso deixar de concluir que, nisso tudo, o que fica é a imensa, a abismal ignorância de não poucos intelectuais – e não exatamente sobre claves de dó, mas sobre música como matéria de cultura. Salvo raríssimas exceções, os intelectuais jovens e a esmagadora maioria de seus professores universitários sabem da grande música exatamente nada. Já ouvi de professores de filosofia raciocínios imensos sobre as aplicações de alguns conceitos
heideggerrianos ou mesmo adornianos sobre Machado de Assis ou
Goya. Mas quando os aplicam à música, o exemplo é
Pixinguinha. O coetâneo de
James Joyce não seria
Weber, mas
Caetano Veloso... A menção à arte brasileira só teria um pressuposto – na última cançãozinha de sucesso, quando não num rock. Conheço um professor que provoca frissons emocionados na platéia quando, ao citar
Malarmé, encaixa não se sabe como, uma frase qualquer extraída de
Gilberto Gil. O sucedâneo musical de Thomas Mann não seria
Richard Strauss, ou
Gustav Mahler – mas bem plantada canção de
Donga. Claro, não deixa de ser engraçado. Mas também não deixa de ser falso e, convenhamos, de ridículo.
Machado de Assis foi admirador incondicional de
Alberto Nepomuceno (talvez o maior compositor brasileiro de todos os tempos). Nepomuceno foi um nacionalista radical e talvez dissesse dos músicos populares de seu tempo o que poucos ousariam, pois ele os admirava. Mas de Nepomuceno a Machado, passando por Silvio Romero – para não mencionar
Mário de Andrade a quem todos os intelectuais da USP ou fora dela têm como modelo (e ele o é), foram raras as confusões. Não caíram no populismo barato de hoje em dia. Certamente tinham escrúpulos em achar que podiam suprir sua mauvaise conscience trocando valores pela demagogia escorada na ignorância de serem surdos à grande música para enaltecerem a outra. Pois é mesmo disso que se trata. Não vou dizer, portanto, que Benito Juarez ou
Karabtchevsky sejam os últimos réus nas concessões que fazem, já que é desses professores de filosofia, literatura, sociologia etc. dos "modelos de intelectuais", que eles recebem o incentivo para fazerem o que fazem. São culpados por mera comiseração intelectual. Não lhes ocorre que um intelectual que não conhese as nove sinfonias de Beethoven, que não sabe quem é
Alban Berg ou
Stravinsky ou que prescinde das óperas de Mozart é apenas e tão-somente um rotundo ignorante. É assim mesmo. Ou seja, pessoas que acham que podem discutir o romantismo alemão sem conhecerem
Schumann ou
Schubert, ou que mencionam
Dostoievsky e
Turgueniev sem saberem das obras fundamentais de
Mussorgsky,
Rimsky Korsokov e
Tchaikovsky, podem ter idéias bonitinhas e agradáveis – mas são impostores. Enfim, que falem – mas não sobre música."
Trecho de "Um Estudo em Cinzento", de José Onofre (página 76):
"o maior mistério enfrentado por
Sherlock Holmes foi ele mesmo. Relações difíceis com as mulheres e uma inteligência generosa que se dedicava a apreender apenas as ciências e as técnicas que serviam como lógicas auxiliares à investigação da ação criminosa. Holmes, homem refinado de extrema ignorância, pragmático do conhecimento, era extremamente contemporâneo – para não dizer excessivamente otimista – ao considerar a minuciosa leitura dos jornais uma forma de saber realmente o que se passava fora do limitado mundo de carrascos e vítimas que iam ancorar no apartamento da Baker Street. O próprio Holmes era um marginal auto-ungido. Embora em quase nada se opusesse as regras básicas do
vitorianismo, seu desprezo pelas formalidades, pelas instituições policiais e a tentação da misantropia, do sigilo e das especulações sombrias, o colocavam à margem das convenções mais óbvias, pelo menos das que se conhece, referenciadas por
Conan Doyle."
"Em 1901, Doyle não resistiu mais e, numa famosa entrevista (há sherlockianos que a têm enquadrada em suas paredes) admitiu ao repórter que
Watson poderia ter se enganado ao autenticar a morte de Sherlock Holmes. O homem estava voltando, do mais profundo dos abismos e os leitores estremeciam na mais legitima das alegrias. Mas os especialistas – ah, esses eternos criadores de caso – diziam que estes oito anos de descida ao inferno o haviam mudado, que não era mais o mesmo e que nunca se recuperou e conseguiu ter o encanto dos primeiros anos. Talvez seja verdade mas a mágica de Sherlock Holmes nunca esteve apenas no vigor inicial da imaginação e do texto de Conan Doyle. Foi e ainda é algo muito maior do que os talentos de um autor. Estava e está na cumplicidade de um público que o elegeu como um modelo muito especial de independência e habilidade diante dos aparentemente imensos enigmas que enfrentava. Ele tornava o mundo mais simples e manejável sem precisar de muito trabalho, muito dinheiro ou muito poder, apenas usando habilidade disponíveis, como a observação e um certo aparato mental bem cuidado. Sua excepcionalidade era descodificar o mais cifrado dos crimes, mostrando a banalidade das motivações por trás do até então inexplicável. Entrava em depressões e sumia do mundo, para reaparecer mais bem disposto e sagaz do que nunca. Era solitário, dependente de alguns hábitos difíceis de quebrar, tinha medo dos outros e das mulheres, sempre bem disfarçado, olhava o mundo com um certo desprezo, alguma indiferença. Nisso, um homem comum. Mas era dono do seu trabalho e do seu mundo, escolhia seus adversários e os batia. Nisso, um homem de características excepcionais. E depois ele andava por uma cidade mítica e subterrânea, sob névoa permanente e conhecia cada um de seus cantos, que percorria comandando cocheiros e debochando da polícia. Conhecia venenos estranhos, distinguia um charuto cheirando suas cinzas, possuía aliados nos lugares mais indesejáveis mas só precisava de Watson, de vez em quando. Se ele não existisse, alguém precisaria inventá-lo."